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Costa do Marfim: A selecção que acabou com a guerra civil

O país do Deus Drogba

Na Costa do Marfim, deram o nome de Drogba à cerveja nacional, a uma aldeia e à canção que liderou o top de vendas. O jogador do Chelsea é o maior símbolo de uma selecção que fez num jogo o que os políticos do país não conseguiram em cinco anos: acabar com a guerra civil.

 Na final da Liga dos Campeões de 2007, que opôs as equipas inglesas do Manchester United e do Chelsea, sofreu-se mais numa aldeia marfinense do que em qualquer bar em Londres. O chefe da aldeia Drogba, situada escassos quilómetros a oeste de Abidjan, contraiu uma divida de quase 15 mil euros para comprar uma ecrã de dimensões cinematográficas e organizar uma grande festa para os moradores e povoações vizinhas. O ancião baptizou a aldeia depois de ter notado que a sua esposa fazia anos no mesmo dia que o futebolista e de ter chamado Drogba aos seus dois filhos. “Ele é mais do que um futebolista e mais do que um homem. Ele é um Deus enviado para dar alegria e esperança ao povo da Costa do Marfim”, disse o chefe da tribo ao jornal inglês The Sun.

Este é só um dos muitos exemplos da devoção dos marfinenses ao seu capitão de equipa. A cara de Drogba está espalhada pelo país em cartazes publicitários do banco e do chocolate nacional. Em Abidjan, a principal cerveja do país foi apelidada de Drogba, por ser alta – de 1 litro – e forte – 5,5% de teor alcoólico -, tal como o goleador da selecção. O musico Billy Billy subiu aos tops de vendas nacionais com uma musica de hip-hop chamada Didier Drogba. Diz a letra: “Je suis fan, fan de l’enfant, de le capitan de Les Eléphants…Didier Drogba”.

Les Eléphants (Os Elefantes) é o nome pelo qual é conhecida a selecção da Costa do Marfim. No sorteio da passada sexta-feira, o destino voltou a colocar os africanos no grupo mais difícil do Campeonato do Mundo; na sua primeira participação, em 2006, a Costa do Marfim cruzou-se com a Holanda, Argentina e Sérvia-Montenegro e ficou pelo caminho. Quatro anos depois, os adversários são a Coreia do Norte, o Brasil e Portugal, contra quem jogará na primeira jornada. Porém, a Costa do Marfim está mais forte que nunca. Ultrapassou a fase de qualificação sem sofrer qualquer derrota e com um registo de 29 golos marcados contra apenas seis sofridos, em 12 jogos. Todos os jogadores da equipa, treinada pelo bósnio Vahid Halilhodzic, jogam em clubes europeus. Sete dos 11 titulares alinham mesmo em clubes de topo – Arsenal, Chelsea, Manchester City, Barcelona e Sevilha. O grupo G é ainda o mais milionário do Mundial; a soma dos valores das ultimas transferências das três estrelas das principais equipas, Kaka, C.Ronaldo e Drogba, dá 195 milhões de euros.

Contudo, não é de esperar que os elefantes se atemorizem com o peso dos concorrentes. Entre 2001 e 2006, esta selecção teve de bater-se contra um adversário bem mais temível – a guerra civil. A situação na Costa do Marfim, maior produtor de cacau e café e oásis de estabilidade na África Ocidental desde a sua independência, complicou-se após duas tentativas de golpe de Estado em 1999 e em 2001. O pais ficou dividido em dois: o sul, mais próspero e cristão, controlado pelas tropas governamentais e o norte, islâmico e mais pobre, controlado pelas forças rebeldes de Guillaume Soro. A nação, composta por 60 etnias diferentes, foi inundada por banhos de sangue e entrou em colapso. A selecção, composta por atletas das mais diversas crenças e etnias, permaneceu unida. A guerra só parava para ver Drogba e Kalou a jogar.

Em 2005, após ter conseguido a qualificação para o Mundial’ 2006 num jogo milagroso contra o Sudão, Drogba pegou no microfone de uma equipa de televisão que entrou no balneário, ajoelhou-se e disse, em directo, ao pais: “Marfinenses, ao qualificarmo-nos para o Mundial mostrámos que toda a Costa do Marfim pode partilhar os mesmos golos. Prometemos que os festejos vão voltar a unir toda a gente. Rogamos-vos, de joelhos, para que deixem cair as armas e organizem eleições livres”.

A profecia de Drogba concretizou-se: pessoas do norte e do sul rumaram a Abidjan para receber os heróis, que se passearam em tronco nu pela cidade, em cima de tanques do exército do Governo. O presidente Laurent Gbagbo ofereceu uma casa de luxo em Abidjan a cada um dos jogadores da equipa. Na Costa do Marfim, o futebol pode causar ondas de euforia e de ódio – em 2000, a selecção teve de esconder-se numa base militar para se refugiar da ira dos adeptos, enfurecidos por uma prestação desastrosa da equipa na Taça das Nações Africanas.

Durante o Mundial de 2006, o país deu as mãos pelos Elefantes. Já em 2007, Drogba conseguiu fazer num jogo de futebol o que políticos e diplomatas não conseguiram ao longo de cinco anos. Estando em vigor um frágil cessar-fogo, o jogador do Chelsea exigiu que a partida de qualificação para a Taça das Nações Africanas contra Madagáscar se jogasse em Bouaké, epicentro da guerra civil e quartel-general das forças rebeldes. Cinco anos depois, governo e revoltosos cantaram o hino juntos, a Costa do Marfim ganhou por 5-0 e a guerra acabou. Drogba saiu a ombros. As manchetes anunciaram: “Cinco golos para acabar com cinco anos de guerra”. “Quando vi Drogba na TV, fiquei com pele de galinha. A minha mulher chorou, os jornalistas choraram. Nos tínhamos este tumor, estávamos doentes, mas não tínhamos perspectivas de melhorar. Não podia ter sido feito por outra pessoa. Só Drogba. Foi ele que nos curou da guerra”, disse Cristophe Diecket, um  oficial da federação marfinense, à revista Vanity Fair.

Em Abidjan, um grupo de mulheres costuma concentrar-se em casa de Zokora, jogador do Sevilha. É o grupo das Mães Elefantes e é constituído pelas mães dos jogadores da selecção. Elas viram metade do actual plantel crescer nos subúrbios da cidade, jogando descalços ou com korodjo – umas típicas sandálias brancas de plástico, cujo par custa um euro. Viram-nos chegar à academia do ASEC Mimosas, uma espécie de Real Madrid da África Ocidental e a assinar pelos melhores clubes francófonos na Europa. Viram como se transformaram em estrelas internacionais e receberam casas de luxo. Quando Portugal jogar contra a Costado Marfim, as Mães Elefantes vão estar em casa de Zokora. Umas vão estar viradas para Meca, outras praticarão cultos animistas, outras terão um terço nas mãos. Algumas nasceram em aldeias do Norte, outras no Sul. E só podem estar todas juntas porque viram os filhos calar uma guerra.

Coreia do Norte: 44 anos depois volta a encontrar Portugal no Mundial

 

O guarda-redes da Muralha de Ferro

Não podem jogar fora do país, recebem salário do Estado, não usam Internet e transformam avançados em guarda-redes para bem da nação. A selecção norte-coreana foi construída segundo os alicerces da ditadura de Kim Il-sung e é a mais secreta do Mundo. O guarda-redes Ri Myong-guk é o herói do país.

A Coreia do Norte precisava de empatar o seu último jogo contra a Arábia Saudita para garantir a presença no Mundial. Em Riade, o guarda-redes Myong-guk fez uma sucessão de defesas impossíveis, mantendo a sua baliza intocada e preservando o empate sem golos. Graças a esse resultado, o país mais isolado do Mundo conseguiu qualificar-se para o campeonato da África do Sul e Myong-guk foi promovido a herói nacional.

O guarda-redes é o símbolo do espírito de sacrifício e da disciplina da equipa. Com 23 anos, vem de uma família de futebolistas e de voleibolistas. Começou a carreira com 13 anos, como guarda-redes da escola de Phyongchon e mostrou logo muito talento. Mas Myong não queria estar na baliza, sonhava com terrenos mais adiantados para poder marcar golos pelo seu país. Foi com esse objectivo que chegou ao Pyongyang City, o seu actual clube. Mas o treinador sabia que a principal lacuna da selecção estava na baliza e, vendo o potencial atlético de Myong-guk, pediu-lhe que se treinasse como guarda-redes. A opção revelou-se a mais acertada. Os norte-coreanos sofreram apenas 6 golos em 16 jogos na fase de qualificação para o Mundial e Myong chegou a estar 671 minutos sem sofrer qualquer golo, registo apenas ultrapassado pelo holandês Edwin van der Sar. Foi também incluído na lista dos 15 melhores futebolistas da Ásia. Além disso, é tido como um exemplo de dedicação ao regime e chamado de “Guardião da Muralha de Ferro”.  “Quando estou a defender a baliza, sinto-me a guardar o portão da minha terra-mãe”, disse o guarda-redes, na chegada da equipa ao aeroporto de Pyongyang após garantir a presença no torneio da África do Sul.

A qualificação directa da Coreia do Norte foi uma das maiores surpresas da competição. A maioria dos futebolistas joga na liga norte-coreana, em que todas as equipas pertencem ao Estado ditatorial de Kim Jong-il, filho do fundador do regime e líder eterno, Kim Il-sung. É o governo que lhes paga o ordenado, que os pode transferir ou despedir. Não existem estrangeiros. A melhor equipa do campeonato e a que fornece mais jogadores à selecção é o 25 de Abril, o clube do Exército do Povo Coreano, assim denominado em homenagem ao Dia da Fundação Militar, em 1932, quando os norte-coreanos estabeleceram a sua guerrilha anti-japonesa. Apenas quatro atletas jogam no exterior: Hong Yong-jo, no Rostov da Rússia, Kim-Kuk-jin, dos suíços FC Will, Ahn Young-hak, dos sul-coreanos Suwon Samsung e Jong Tae-se, a estrela da equipa, dos japoneses Kawasaki Frontal.

Tae-se, também conhecido na Ásia como “Rooney coreano”, nasceu em Nagoya, no Japão, descendente de sul-coreanos. No Japão, andou sempre em escolas subsidiadas pela Coreia do Norte e acabou por assimilar os ideais revolucionários proliferados pela dinastia Kim. Teve bastantes problemas burocráticos para trocar a nacionalidade sul-coreana pela da parte norte da península, uma vez que os países não reconhecem legitimidade um ao outro. Mais tarde, teve de escolher entre as selecções japonesa e norte-coreana. Depois de assistir à eliminação da Coreia do Norte às mãos do Japão, em 2006, Tae-se fez a sua escolha – internacionalizou-se pela equipa comunista.

Esta não vai ser a estreia da Coreia do Norte num Campeonato do Mundo. Há 44 anos, quando Pak Do-ik marcou o golo da vitória da Coreia do Norte contra a Itália no Mundial de 1966, o Mundo ficou perplexo. Os desconhecidos norte-coreanos afastaram uma das melhores equipas da prova e tornaram-se na primeira selecção asiática a passar da fase de grupos de um Campeonato do Mundo. Ainda hoje, os italianos chamam a Do-ik “Il Dentista” (O Dentista), pela dor aguda que infligiu à nação.

Os “Mosquitos Vermelhos”, como foram apelidados, só sucumbiram aos pés de Eusébio nos quartos-de-final, numa derrota contra Portugal por 5-3. Assim que essa famosa equipa que encantou o Mundial de Inglaterra há 44 anos regressou à Coreia do Norte, desapareceu para sempre. Correram rumores horríveis sobre o destino dos heróis norte-coreanos porque, ao que parece, as autoridades norte-coreanas não ficaram tão satisfeitas com a participação quanto os adeptos. “As pessoas diziam que durante a estadia em Inglaterra, os jogadores tinham bebido e seduzido mulheres”, diz Shim Joo-il, um ex-militar norte-coreano exilado na Coreia do Sul, à BBC. “Há quem diga que alguns deles foram enviados para as minas de carvão como castigo e que foi por essa razão que a nossa equipa nunca mais chegou tão longe”. Se é um mistério o que aconteceu à selecção norte-coreana de 1966, pouco mais se sabe sobre a equipa que se vai cruzar com Portugal no grupo G do Mundial 2010. A razão é simples: a Coreia do Norte é o país mais fechado do Mundo. Praticamente não recebe turistas, a população não tem telemóveis nem internet nem acesso a outros canais de televisão senão os impostos por Kim Jong-il. O déspota já anunciou que a televisão norte-coreana apenas transmitirá as eventuais vitórias da selecção nacional. Mesmo no resumo de jogos vitoriosos, serão vetadas as imagens de propagandas consideradas perigosas e das claques adversárias. Se a Coreia do Norte não se sagrar campeã, 99% da população norte-coreana não saberá quem venceu o Mundial. As hipóteses disso acontecer são tremendas. As bolsas de apostas inglesas estabelecem em 1 para 350, a probabilidade de vitória norte-coreana.

Pela primeira vez desde 1966, a selecção aterrou na Europa para fazer um estágio em Nantes, França. A selecção empatou 0-0 os dois jogos que fez em solo europeu, contra a selecção do Congo-Brazaville e contra o Nantes, clube da segunda divisão francesa. A necessidade de manter os norte-coreanos isolados num reino eremita faz com que existam no país algumas leis impensáveis. É, por exemplo, proibido dobrar, amachucar ou mandar para o lixo um jornal cuja manchete tenha a foto do líder Kim Jong-il. Só se pode entrar no país através de agências de viagem nacionais e com guias autorizados e não se podem levar livros, discos ou filmes que possam fazer circular qualquer prática ocidental. Para um norte-coreano, a saída está vedada. E qualquer desrespeito a estas regras é punida com mãos sanguinárias – calcula-se que no país existam seis campos de concentração com mais de 150 mil pessoas que contrariaram as ordens do regime. Relatos de refugiados indicam a existência de câmaras de gás e de ensaios químicos com prisioneiros. Três milhões de pessoas passam fome; por causa da subnutrição, a média de altura dos norte-coreanos é sete centímetros inferior à dos seus vizinhos do sul.

A rivalidade entre as duas Coreias é tão grande que os dois jogos marcados para Pyongyang durante a fase de qualificação tiveram de ser disputados em campo neutro, uma vez que a Coreia do Norte se recusou a passar o hino sul-coreano e a hastear a bandeira rival em solo nacional. No jogo de Seoul, os norte-coreanos desculparam a derrota por 1-0 com um enredo cinematográfico;  o seleccionador Kim Jong-hun disse, em conferência de imprensa, que os sul-coreanos tinham envenenado a comida da sua equipa.

Tiago Carrasco, revista Sábado 10/11/09

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Numa altura em que Silvio Berlusconi continua no hospital, a tentar retirar da cara as marcas da agressão com um souvenir da Catedral de Milão de que foi vítima, deixamos-lhe aqui a crónica do escritor angolano Pepetela sobre o primeiro-ministro italiano,escrita antes da agressão. Pepetela coloca uma questão pertinente – e se Berlusconi fosse africano? Certamente teria sido agredido com uma réplica de brinze das Pirâmides de Gizé. Mas Pepetela traça mais analogias curiosas entre Il Cavaliere e alguns dos líderes mais tiranos do continente africano.

Sílvio Berlusconi, o primeiro-ministro italiano, tem chocado muita gente com piadas de mau gosto, algumas mesmo de pendor racista; com medidas políticas de espantar como aquela de fazer aprovar uma lei pela qual ele é inimputável, estando portanto acima de qualquer outro cidadão italiano, pois esse cidadão pode a qualquer momento ser tocado pela lei; por ser dono da rede de televisão mais importante de Itália, além de editoras e jornais, e, por essa razão, condicionar parte da opinião pública.

Por ser suspeito de ter entrado em negócios mais ou menos escuros e que só não terminam em condenações no tribunal porque, por um lado, consegue apoios por meios nem sempre transparentes, e por conseguir impedir as leis de serem aplicadas, vencendo nas urnas; por ter feito afirmações e fazer aprovar uma lei contra a imigração que só pode ser considerada racista e desumana, atirando a Itália para o lugar dos países a evitar se se tem certa coloração de pele.

Ultimamente a sua vida privada, com muitos escândalos propalados, festas de arromba onde são contratadas prostitutas, suspeitas de pedofilia, declarações de detalhes picantes, fez a chefia da própria Igreja Católica, até aqui tão benevolente em relação às figuras da direita italiana, começar a torcer o nariz perante tanta indignidade (talvez ainda reaja tímida e parcimoniosamente, mas já é um passo).

Suspeito de muita corrupção e jogadas sujas, com uma série de processos pendentes, Berlusconi tem servido de pasto para bastantes reportagens e piadas da imprensa europeia. Alguns italianos, preocupados com a imagem de um país assente sobre uma das culturas mais sólidas e conhecidas do mundo, sentem-se humilhados pelo seu primeiro-ministro. No entanto, basta haver uma eleição para mais de metade dos eleitores o sufragarem. Qual o feitiço dele que tanto atrai os italianos (ou italianas), apesar de todas as gafes e acusações?

A estas questões só os eleitores italianos poderão responder. E a nós cabe dizer, já que o escolhem, não se devem queixar.

Mas há outra questão que gostaria de colocar: será que a imprensa europeia em geral (há sempre excepções dignas de realce) seria tão compreensiva, ficando sempre pelos sorrisos e o encolher de ombros, se Berlusconi fosse africano? Ou, pondo a questão de outra maneira, se não fosse branco e europeu?

Imaginemos alguém no nosso continente que tenha comportamentos semelhantes aos do primeiro-ministro italiano. Não vou socorrer-me de Mobutu, Idi Amin ou Bokassa, que esses são de outro campeonato e mereceram todo o mal de que se falou nos media europeia a partir de certa altura, quando se tornaram incómodos para certas causas e poderes. Alguns chefes menos ferozes e cruéis que estes três grandes, mas tendo-se notabilizado por ditos infelizes, comportamentos reprováveis, sejam políticos, económicos ou pessoais, servem de batuque onde toda a imprensa europeia bate constantemente.

São tratados nos meios de comunicação com condenações públicas e sem apelo, usando-se a mais pequena notícia para relembrar que são isto, aquilo e aqueloutro. Provas? Muitas vezes nem as apresentam, partindo do princípio que roda a gente sabe. Os media só não os atiram para as jaulas de leões porque não têm leões nas redacções.

No entanto, quando falam das façanhas do primeiro-ministro italiano, sorriem e contam as coisas em tom ligeiro, quase cúmplice, pronto, deixem lá, já se sabe que o homem é mesmo assim, um desbragado…

Conclusão: neste mundo continua bom ser branco e ter nascido para lá do Trópico de Câncer. Até se pode ser Berlusconi.

Crónica de Pepetela no nº35 da revista África 21, Novembro de 2009

O projecto Road to World Cup congratula-se por oficializar a parceria com uma das mais importantes ONG portuguesa.

Mario Balotelli, avançado do Inter, marcou na quarta-feira um dos golos mais espectaculares desta edição da Liga dos Campeões. O avançado italiano apontou o segundo golo da equipa contra os russos do Rubin Kazan, conferindo tranquilidade a José Mourinho e assegurando a passagem do Inter aos oitavos-de-final da prova. Balotelli é conhecido pelo seu talento, que faz com que seja considerado um dos jovens futebolistas mais promissoes da actualidade, mas também pela sua rebeldia. Em Abril deste ano, escrevi uma reportagem sobre a interessante vida de Balotelli para a revista “Sábado”. Aqui fica a história de Mario, abandonado pelos pais, adoptado, vítima de insultos racistas por parte dos adeptos adversários e goleador indomável. Não é por acaso que José Mourinho já disse que se pode tornar num dos melhores avançados do Mundo.

“Não há italianos negros.” Foi esta a frase gritada pela claque da Juventus contra Mario Balotelli, avançado do Inter de Milão. Apesar das provocações e dos insultos, o avançado de 18 anos marcou o golo da sua equipa (ficou 1-1) e o caso ainda valeu à Juventus um castigo: o próximo jogo em casa, contra o Lecce, é à porta fechada. Só que a punição não serviu de nada: quatro dias depois, no jogo contra a Lazio para a Taça, palavras de ordem como “Balotelli bastardo” e “Preto, filho da p…” voltaram a ser entoadas pelos adeptos da Juventus. José Mourinho, treinador do Inter, e Clarence Seedorf, jogador negro do AC Milan, desdramatizaram e disseram que os insultos não eram racistas, mas pessoais. Mas Massimo Moratti, presidente do Inter, foi taxativo: “Se eu estivesse no estádio, tinha deixado o meu lugar na tribuna, tinha descido ao campo e retirado a equipa, porque há um limite para tudo.” A relação de Mario Balotelli com os adeptos nunca foi pacífica. Já em Março fora insultado pelos adeptos da AS Roma após ter simulado uma grande penalidade, provocado o público e deitado a língua de fora diante de Panucci. O que lhe valeu as críticas de Totti, da Roma: “Quando Balotelli ia marcar um pontapé de canto, ouvi-o mandar bocas ao público. Estes insultos não devem acontecer. Ele ainda tratou mal os meus colegas, que estavam apenas a defender os nossos adeptos. A atitude dele é condenável para um miúdo de 18 anos.” A história da sua vida poderá ajudar a perceber o comportamento rebelde. Balotelli nasceu em Palermo no Verão de 1990, poucos meses depois de os pais biológicos, Thomas e Rose Barwuah, terem emigrado na clandestinidade do Gana para a Sicília. Era o mais novo de quatro irmãos. Pouco depois, a família Barwuah foi para perto de Bréscia, no Norte de Itália, onde dividiu uma casa com outra família africana. “Era uma casa só com um quarto, muito húmida e cheia de bolor”, recorda Rose Barwuah. Um sítio desaconselhável para uma criança doente. Balotelli nasceu com uma má formação no intestino, megacólon, e passou os primeiros dois anos de vida no hospital, onde foi submetido a três operações. “Já era a mascote dos médicos e dos enfermeiros”, lembra Mario. O jogador diz que foi abandonado no hospital e que os assistentes sociais o entregaram a uma família de adopção, os Balotelli. A mãe biológica, Rose, tem outra versão: “Tinha uma criança doente e não a conseguia criar. Fui com ele à assistente social, que o encaminhou para a família Balotelli. Achei que podia dar-lhe um futuro melhor.” A família adoptiva morava a apenas 12 quilómetros da casa dos Barwuah, mas uma tinha dinheiro e a outra não. “A minha primeira recordação da casa é o longo corredor da entrada. Chutava uma bola de uma extremidade para a outra, partia os vasos e riscava os móveis. Tínhamos também um jardim. Quando os meus pais me davam prendas, escondiam-nas pela casa. Encontrei a minha primeira bicicleta dentro do armário.” Mario passou a ver em Franco e Sílvia Balotelli os verdadeiros pais. Este ano, quando os Barwhuah manifestaram publicamente tristeza por não verem Mario mais vezes, ele respondeu com um comunicado na sua página na Internet: “Durante 16 anos, nem me ligaram no dia do meu aniversário. Há dois anos que só os vejo quando vou visitar os meus irmãos. Agora aparecem a dizer que querem uma relação de afecto porque temos ligação de sangue? Que afecto? Que ligação de sangue? Só demonstro afecto àqueles que me amaram como um filho.” A adopção nunca chegou a ser oficializada. Balotelli só representou a selecção italiana quando atingiu a maioridade e pôde escolher a sua origem. Marcou na estreia pela selecção sub-21. Estreou-se com 15 anos nos seniores e foi o mais novo a jogar na Liga C1, pelo Lumezzane. Em 2006 foi comprado pelo Inter por 340 mil euros e estreou-se a marcar pela equipa principal com 17 anos – o segundo mais novo de sempre. É também o futebolista mais jovem da história do clube a marcar na Liga dos Campeões. Balotelli praticou karaté, judo, basquetebol, atletismo e natação. Está a finalizar o ensino secundário e gosta de Matemática. Diz que a cor da sua pele só lhe causou problemas com as raparigas e numa peça de teatro, em que dois colegas lhe disseram que os negros não podiam representar. Sempre teve problemas de comportamento “Uma vez fiz uma rasteira a um colega e parti-lhe dois dentes. A minha mãe trancou- me no quarto e proibiu-me de ir aos treinos. Eu fugi pela janela e fui a pé para os montes, onde era o campo”, conta Mario. Quando está triste, corre para o telemóvel para ligar à mãe adoptiva. Isso aconteceu quando José Mourinho o deixou de fora das convocatórias durante dois meses devido à sua personalidade problemática. Balotelli chegou a chorar no treino. “Se ele treinasse como o Zanetti, por exemplo, podia já ser um dos melhores do mundo. Mas treina a 25%. Tem um talento enorme, mas tem de saber que ainda não fez nada e que tem de treinar mais”, disse José Mourinho. Até os colegas de equipa já admitiram que não gostam das provocações constantes e da forma como Balotelli se dirige aos árbitros e aos adversários. Ele admite que é muito possessivo e reage a provocações: “Se alguém me provoca, dou-lhe uma patada. Mas também sou capaz de pedir desculpa. Não sei se isto terá a ver com o abandono dos meus pais”.

As mulheres e as férias

COLECCIONA NAMORADAS E GOSTA DE FÉRIAS ALTERNATIVAS. EM 2008 ESTEVE NUMA FAVELA.

 BALOTELLI, que já teve casos amorosos com várias mulheres, agora namora com a modelo grega Betty Kourakou. Tem uma marca personalizada de roupa (SMB, Super Mario Balotelli) cujos lucros vão para as crianças das favelas de Salvador da Baía, no Brasil. Gosta de passar férias alternativas e em 2008 foi às favelas. Este ano vai estar com os activistas da WWF, uma ONG ambientalista.

Revista Sábado, 2009

 

Al Bangura chora ao saber da notícia da deportação. Fonte: Daily Mail

Em Dezembro de 2007, o editor Carlos Torres, da revista “Sábado”, pediu-me para escrever uma página sobre a história de um futebolista africano a actuar na Premier League que estava prestes a ser deportado por falta de documentação. Foi assim que, após alguma pesquisa, conheci a história de Al Bangura, nascido em Freetown, capital da Serra Leoa. O futebolista sofreu uma série de atrocidades até se tornar profissional do futebol e, quando chegou ao topo, queriam mandá-lo de volta para o sítio onde o tentaram matar.

Bangura é hoje futebolista do Blackpool, equipa do primeiro escalão do futebol inglês. Mas, há exactamente dois anos, viu a vida andar para trás. Sem licença de trabalho, foi obrigado pelo governo inglês a voltar ao seu país onde estava ameaçado de morte. A 15 de Dezembro de 2007, 18.000 fãs do Watford, o seu clube de então, exibiram cartazes com a cara de Bangura e com a frase: “Ele é da família”. Quatro dias depois, o Ministério do Interior decretou que Bangura poderia permanecer em Inglaterra enquanto aguardava a sua licença de trabalho e anulou a deportação. O futebol voltou a mostrar a sua influência.

Aqui fica a história de infância de Al Bangura, escrita por mim em 2007 para a revista “Sábado”.

A primeira experiência de Alhassan Bangura em Inglaterra foi assim: “Dois homens tentaram tirar-me as calças, queriam violar-me. Gritei o mais que pude e consegui soltar-me.” Tinha apenas 15 anos e fugira da Serra Leoa com a ajuda de um traficante de menores francês. O contrabandista queria que ele se tornasse prostituto em Londres. Bangura escapou e hoje, aos 19 anos, é um dos jogadores mais bem pagos do Watford, o primeiro classificado da segunda divisão do futebol inglês. Ganha 150 mil euros por mês, tem uma casa luxuosa em Hertfordshire e está na lista de contratações do Arsenal.

Só que, legalmente, Bangura não existe. Apesar do contrato de trabalho, não tem documentos que provem a sua identidade e que o ajudem na legalização. Por isso, quando fez 18 anos, as autoridades inglesas negaram-lhe a nacionalidade e o visto de residência. O futebolista recebeu ordem de deportação, mas alegou que não pode regressar ao país porque uma sociedade tribal secreta o quer mutilar e matar.

BANGURA NASCEU na capital da Serra Leoa, Freetown, uma das cidades mais pobres do mundo. O pai era líder da sociedade secreta de Poro, uma organização tribal conhecida pelos rituais extremistas, bruxarias e mutilações.

Quando morreu, os membros do grupo ordenaram que Bangura ocupasse a posição do pai. O rapaz recusou e, a partir daí, diz que foi vítima de perseguições e ameaças de morte, tendo fugido para a Guiné Conacri, onde dormiu nas ruas durante dois meses. Um dia pediu esmola a um francês que o acolheu em sua casa. O europeu acabou por levá-lo para Paris e depois para Londres, onde pretendia colocá-lo numa rede de prostituição de menores. Bangura fugiu e procurou ajuda num centro de acolhimento para imigrantes, tendo recebido apoio psicológico.

Em 2004, estava a jogar num parque público em Londres quando despertou a atenção de um “olheiro” do Watford. “Era como um diamante por lapidar. Apesar de nunca ter jogado numa equipa federada e só praticar com os amigos na rua, vimos logo que o nível dele estava acima da média”, conta Lain Moody, director do departamento de futebol da equipa inglesa. Bangura entrou na academia do Watford e, um ano depois de ter fugido da Serra Leoa e da rede de pedofilia, estava a jogar nos melhores estádios de Inglaterra. Ao sucesso nos relvados, somou a simpatia dos adeptos, um óptimo salário e uma relação estável. O primeiro filho nasce no início de 2008. Mas em Maio, o Ministério do Interior reparou que a autorização para permanecer em Inglaterra tinha caducado e deu-lhe ordem de expulsão. Bangura recorreu. Mas como perdeu o contacto com a família, não tem como provar sequer o seu nome. Ouvido em tribunal na semana passada, saberá dentro de 15 dias se o seu futuro passa pelos estádios ou por Freetown: “Se voltar, eles vão perseguir-me. Vou morrer.”

Revista Sábado, Dezembro de 2007

Radiografia do sorteio

GRUPO A

 África do Sul

México

Uruguai

França

Figuras

Carlos Alberto Parreira  – O seleccionador brasileiro da África do Sul pode tornar-se no treinador com mais presenças em Campeonatos do Mundo (6)

Thierry Henry – Depois da retirada de Zidade, e mais do que Benzema e Ribery, Henry é o maior símbolo da selecção francesa. Porque é titular no Barcelona, a equipa que melhor joga no Mundo, porque a sua mão esquerda levou a França ao Mundial e, principalmente, porque carrega o espírito vencedor da geração campeã do Mundo e da Europa.

Curiosidades

O grupo conta com duas selecções campeãs do Mundo, França e Uruguai, e com a selecção anfitriã do Mundial, a África do Sul. Todas elas também já organizaram ou vão organizar um Mundial.

O jogo África do Sul – México vai abrir o Campeonato do Mundo, no dia 11 de Junho de 2010, pelas 15h, no Soccer City de Joanesburgo.

Grupo B

Argentina

Nigéria

Coreia do Sul

Grécia

Figuras

Diego Maradona – O treinador argentino conseguiu o apuramento no último jogo, contra as expectativas de quase toda a gente. Maradona já se sagrou campeão do Mundo como jogador mas a maioria dos argentinos não acredita que esta Argentina consiga repetir a proeza de 1986. Conseguirá Maradona voltar a contrariar o destino?

Lionel Messi – Conquistou a Bola de Ouro, para melhor jogador do Mundo em 2008, e não vai querer deixar de levar a Argentina à final da competição. Messi quer ser o Maradona de 86 e superar Cristiano Ronaldo na África do Sul. A fasquia é elevado e, para o consigar, necessitará de uma equipa a jogar bem melhor do que fez na fase de qualificação.

Otto Rehhagel – O treinador alemão cometeu a proeza de conduzir a selecção grega à vitória no Euro 2004 com um sistema ultra-defensivo. Neste grupo, terá de travar  os poderosos ataques da Argentina e da Nigéria.

Curiosidades

Diego Maradona sagrou-se campeão do Mundo como jogador em 1986. Esta é a sua primeira tentativa de repetir o feito enquanto treinador. Foi contra a Grécia, no Mundial 94, que Maradona marcou o seu último golo pela selecção albi-celeste.

O avançado grego Theofanis Gekas, do Bayer Leverkusen, foi o melhor marcador da fase de qualificação europeia do Campeonato do Mundo, com 10 golos.

A Nigéria garantiu o apuramento para o Campeonato do Mundo a sete minutos do final do último jogo, deixando para trás a Tunísia, treinada por Humberto Coelho. Esta é a quarta participação das Super-Águias nos últimos cinco Mundiais, o melhor registo entre as selecções africanas.

Grupo C

Inglaterra

EUA

Argélia

Eslovénia

Figuras

David Beckham – O médio inglês ainda nem sabe se vai ser convocado por Fabio Capello para a selecção inglesa, mas já se tornou no principal embaixador do grupo C. Beckham é a maior figura do futebol em Inglaterra e nos EUA, país onde vive e joga pelos LA Galaxy.

 Fabio Capello – Um dos treinadores com melhor currículo a nível de clubes (nove campeonatos conquistados com quatro equipas diferentes – Juventus, Milan, Roma e Real Madrid), vai tentar provar na África do Sul que também pode conquistar títulos com selecções. A Inglaterra não vence um Mundial desde 1966.

Antar Yahia – O defesa-central do Bochum, da liga alemã, ganhou estatuto de herói nacional ao apontar o golo que qualificou a selecção argelina para o Mundial 2010, 28 anos após a sua última participação. O golo contra o Egipto, na finalíssima disputada no Sudão, foi festejado durante dias consecutivos em Argel. Yahia descreveu o seu golo da seguinte forma: “Chutei para cima, e ele defendeu. Chutei para baixo, e o ele apanhou-a, depois chutei para um lugar que nem o Diabo podia defender”.

Curiosidades

A Argélia, única representante do mundo árabe, ficou colocada no grupo onde estão os eternos aliados ocidentais – Inglaterra e EUA. Mesmo que a Al-Qaeda do Magreb não se tenha apercebido do acaso, os serviços secretos americanos e ingleses já devem estar atentos a quaisquer suspeitas ou indícios de práticas de terrorismo.

A selecção eslovena não tem nenhum jogador que alinhe no campeonato esloveno. Jogam todos em ligas europeias de maior gabarito. Do lado oposto está a selecção inglesa, que tem todos os seus potenciais convocados, à excepção de David Beckham, a jogar na Premier League.

Michael Bradley, jogador norte-americano do Borussia de Monchengladbach, é filho do seleccionador nacional Bob Bradley.

Grupo D

Alemanha

Austrália

Sérvia

Gana

Figuras

Michael Essien – O jogador do Chelsea é a maior vedeta da selecção ganesa e é um dos embaixadores do primeiro Campeonato do Mundo em África. É o segundo jogador africano mais caro da história, à conta da sua transferência do Lyon para o Chelsea por 38 milhões de euros.

Miroslav Klose – O avançado do Bayern de Munique é o jogador no activo com mais golos em fases finais do Mundial (10). Caso seja convocado para o Mundial 2010, pode aproximar-se dos goleadores lendários do futebol mundial.

Radomir Antic – O único treinador que trabalhou no Real Madrid, no Barcelona e no Atlético de Madrid. Treina agora a selecção sérvia, tendo à sua disposição craques como Dejan Stankovic ou Nemanja Vidic.

Curiosidades

A seguir ao grupo G, de Portugal, Brasil, Costa do Marfim e Coreia do Norte, o grupo D é o teoricamente mais forte. Nele estão três das equipas com melhores resultados nas camadas jovens nos últimos anos – Alemanha, Sérvia e Gana.

O guarda-redes Robert Enke poderia ser o titular da selecção alemã no Mundial 2010, mas suicidou-se no passado mês de Novembro. O atleta do Hannover tinha 32 anos.

A Alemanha passou sem derrotas a fase de qualificação e a Sérvia relegou a França para a disputa do play-off.

A Sérvia disputa o seu primeiro Mundial em nome próprio. Antes, tinha feito parte da Jugoslávia e da confederação de Sérvia-Montenegro.

Grupo E

Holanda

Dinamarca

Japão

Camarões

Figuras

Rafael van der Vaart – Depois do afastamento de Ruud van Nistelrooy, é o médio é melhor marcador da selecção holandesa, com 15 golos. É o símbolo da nova geração da “laranja mecânica”, apesar de tardar a assumir-se no seu clube, o Real Madrid.

Morten Olsen – É treinador da selecção dinamarquesa e conseguia a proeza de qualificar directamente uma equipa sem figuras de destaque, deixando Portugal a lutar no play-off. A sua equipa é vulgarmente chamada na Dinamarca de “Gang de Olsen”. Foi também um dos melhores futebolistas do país, nas décadas de 70 e 80.

Samuel Eto’o – O avançado do Inter de Milão é uma das maiores figuras do futebol Mundial e um dos embaixadores do torneio. Eto’o já disse que queria ir mais longe na competição em 2010 do que Milla em 1990.

Curiosidades

A Holanda fez o pleno na fase de qualificação: 8 jogos, 8 vitórias, 17 golos marcados e apenas dois sofridos.

Este grupo e o grupo H são os únicos onde não constam selecções campeãs do Mundo.

A selecção de Camarões tem a melhor marca de uma selecção africana num Mundial. Em 1990, chegou aos quartos-de-final, numa equipa em que brilhava Roger Milla.

O Japão vai para o seu quinto Mundial consecutivo. A selecção asiática obteve a sua melhor posição em 2002, a jogar em casa, tendo chegado ao 9º lugar.

Grupo F

Itália

Paraguai

Nova Zelândia

Eslováquia

Figuras

Fabio Cannavaro – Foi considerado o melhor jogador do Mundial 2006 e é o futebolista mais internacional de todos os tempos pela squadra azzurra. Vai ter mais uma oportunidade de fazer história.

Oscar Cardozo – O jogador paraguaio do Benfica é o melhor marcador da liga portuguesa e está a lutar pela Bota de Ouro para melhor goleador da Europa, mas ainda não conquistou a confiança do seleccionador nacional Gerardo Martino. Corre o risco de passar grande parte do Mundial no banco de suplentes.

Marcello Lippi – Quer revalidar o título de campeão do Mundo que conquistou em 2006. Já foi considerado em três anos diferentes o melhor treinador de futebol do Mundo.

Curiosidades

Um grupo que junta uma estreante, a Eslováquia, e a selecção menos cotada da prova, a Nova Zelândia, que só participou no Mundial de 1982, em Espanha.

A Itália é a actual campeã do Mundo, não sofreu derrotas na qualificação e é bastante superior a todos os seus adversários no grupo. Só uma grande surpresa fará com que a equipa italiana não supere esta fase. Todos os jogadores italianos, à excepção de Rossi e Aquilani, jogam na liga doméstica.

A única participação da Nova Zelândia num Mundial, no Espanha’82, foi desastrosa: 3 jogos, 3 derrotas, 2 golos marcados e 12 sofridos. Não se esperam grandes diferenças na África do Sul. Ao contrário da famosa selecção nacional de rugby, apelidada de All Blacks pelo traje completamente negro, a equipa de futebol joga de equipamento todo branco.

Grupo G

Brasil

Coreia do Norte

Costa do Marfim

Portugal

Figuras

Cristiano Ronaldo – Melhor jogador do Mundo em 2008 e segundo melhor em 2009, é talvez o maior ícone da modalidade a nível internacional. Terá de demonstrar na África do Sul que consegue atingir o mesmo nível na selecção que no Manchester United e no Real Madrid.

Kaká – O Brasil podia jogar no Mundial com três planteis de alto nível mas, no meio de tantas vedetas, Kaká é o que mais se destaca. A sua transferência custou 65 milhões de euros ao Real Madrid e pode fazer com Robinho e Luís Fabiano um trio de ouro na África do Sul.

Didier Drogba – É um Deus na Costa do Marfim e um dos melhores avançados do planeta. O capitão da selecção marfinense foi o principal responsável pelo cessar-fogo da guerra civil que abalou o seu país entre 2001 e 2007. É o melhor marcador de sempre desta equipa africana.

Curiosidades

As últimas transferências de Cristiano Ronaldo, Kaká e Didier Drogba valem somadas 195 milhões de euros. Além de ser o mais forte, o grupo G é também o mais milionário.

A Coreia do Norte, o país mais fechado do Mundo, não disputa um Mundial há 44 anos. O ditador Kim Jong-il já disse que só serão emitidos no país os resumos televisivos dos jogos ganhos pela selecção nacional. A ver pela qualidade do grupo, os norte-coreanos não terão acesso a nenhuma imagem do Campeonat do Mundo.

O Brasil, único pentacampeão mundial, venceu todos os Campeonatos do Mundo de estreia em continentes que nunca tinham recebido a prova. Na estreia de África como anfitriã, o escrete é novamente favorito.

Portugal conseguiu a presença nos últimos três Mundiais, feito inédito na sua história futebolística. A selecção portuguesa conta com três brasileiros naturalizados no seu plantel: Deco, Pepe e Liedson.

Grupo H

Espanha

Suíça

Honduras

Chile

Figuras

Xavi – O segundo mais internacional da equipa mas talvez o mais influente dentro de campo. É ele que faz jogar o meio-campo do Barcelona e da selecção. Foi considerado o melhor jogador do Euro-2008, conquistado pelos espanhóis.

Vicente del Bosque – O treinador herdou o precioso legado de Luís Aragonés e parte para o Mundial como principal favorito à vitória, a par com o Brasil. Del Bosque tem posto a selecção espanhola a jogar um futebol vistoso e tem arrasado todos os adversários que se cruzam no seu caminho.

Marcelo Bielsa – O argentino conduziu a selecção chilena ao segundo lugar no grupo de qualificação para o Mundial, atrás do Brasil e à frente de Paraguai e Argentina. El Loco quer prolongar o feito histórico nas partidas da África do Sul.

Curiosidades

O grupo H junta três equipas de língua oficial castelhana – algo inédito em fases finais do Campeonato do Mundo.

A Espanha é, segundo um estudo recente, a equipa mais valiosa do Mundo. O plantel está avaliado em 595 milhões de euros. Os espanhóis ocupam também o primeiro lugar no ranking da FIFA.

A selecção chilena conseguiu alcançar o segundo lugar na fase de qualificação. Os jogadores chilenos estão espalhados pelos lugares mais distantes do Mundo, em 12 ligas diferentes.

A selecção de Honduras não participa num Mundial desde 1982, a única vez que esteve entre os melhores do Mundo.

A Espanha conseguiu 10 vitórias em 10 jogos na qualificação. Marcou 28 golos e sofreu apenas cinco. Números que metem respeito.

A partir de hoje, podem encontrar nas bancas um artigo sobre o projecto Road to World Cup nas páginas de desporto da revista Playboy. O artigo fala sobre a génese e os objectivos desta viagem e adianta mais alguns pormenores sobre o que vamos fazer. Além disso, também poderá ficar a saber tudo sobre a qualificação para o Mundial, com as principais curiosidades e a informação fundamental.

Deixamos aqui um excerto daquilo que pode encontrar na revista:

“Como mentores deste projecto, sabíamos da importância da presença de Portugal para a visibilidade do nosso trabalho. Como tal, vivemos, como a selecção, cada partida como o jogo das nossas vidas, cada golo como uma ponte para a nossa viagem. E assim foi, de imperial na mão num café da Alameda, a saltar de júbilo com o golo do recém-naturalizado Liedson, a empatar sobre o apito final um jogo decisivo em Copenhaga. A correr de loucura nas bancadas do Estádio da Luz com o golo dinamarquês que afastou a Suécia da luta pelo apuramento. A abraçar desconhecidos no mesmo estádio, das duas vezes que Simão atingiu as redes da baliza húngara. A gritar golo para o rádio do carro quando Nani iniciou a goleada a Malta. De mãos à frente dos olhos quando a Bósnia fez tiro ao ferro em Lisboa. E, por fim, numa casa de fado vadio em Lisboa, enfrentando o habitual e triste destino da nossa música, gritando mais alto do que Amália o golo de Raúl Meireles, fazendo a nossa voz chegar a Zenica. A selecção estava no Mundial e sabíamos que nós iríamos lá estar com eles!”

10 curiosidades sobre o Mundial

Estreias Eslováquia e Sérvia estreiam-se como nações independentes na fase final de um Campeonato do Mundo. Tinham entrado anteriormente como membros da ex-Checoslováquia e ex-Sérvia e Montenegro. Outras selecções regressam após muitos anos de ausência: a Coreia do Norte, ausente desde 1966, Honduras e Nova Zelândia, desde 1982 e Argélia, desde 1986.

Fortuna O Campeonato do Mundo vai custar à África do Sul mais de 2 mil milhões de euros. O orçamento engloba a construção de cinco estádios e a reestruturação de outros cinco. As cidades anfitriãs são: Cape Town, Port Elisabeth e Durban, no sul, e Pretória, Joanesburgo, Bloemfontein, Nelspruit, Rustemburg e Polokwane, a norte. O estádio Soccer City, em Joanesburgo, com lotação para 94.700 espectadores, vai receber o jogo inaugural e o da final.

Zakumi É o nome da mascote do torneio. É um leopardo amarelo de cabelos verdes, O nome vem do termo ZA, abreviação de África do Sul, e Kumi, número 10 em vários idiomas africanos. Foi criado pelo designer Andries Odendaal, natural da Cidade do Cabo.

Ausências de luxo A lista de jogadores famosos que não vai estar no Mundial dava para formar uma selecção de luxo. Petr Cech (Rep. Checa); Cordoba (Colômbia), Chygrynskiy (Ucrânia), Thomas Vermaelen (Bélgica) Chivu (Roménia); Luka Modric (Croácia), Seydou Keita (Mali) e Yuri Zhirkov (Rússia); Ibrahimovic (Suécia), Andrei Arshavin (Rússia) e Adebayor (Togo).

Experiência Se chegar ao Mundial à frente da selecção sul-africana, Carlos Alberto Parreira tornar-se-à no único treinador com seis presenças em fases finais de Campeonatos do Mundo (1986, 1990, 1994, 1998 e 2002). O segundo classificado é o sérvio Bora Milutinovic (1986, 1990, 1994, 1998 e 2002).

Golos O brasileiro Ronaldo é o melhor marcador da história dos Campeonatos do Mundo, com 15 golos. O alemão Gerd Müller, com 14 e o francês Fontaine, com 13, completam o pódio. Entre os futebolistas no activo, apenas o alemão Miroslav Klose, com 10 golos, luta pelos lugares cimeiros. O melhor marcador desta fase de qualificação foi o grego Gekas, com 10 golos.

Imbatíveis Holanda e Espanha foram as duas únicas selecções 100% vitoriosas na fase de qualificação. Os holandeses conseguiram um registo de 17 golos marcados contra 2 sofridos e os espanhóis de 28-5. A Inglaterra teve a melhor média de golos por jogo: 3,4.

Portugal A selecção nacional garantiu a terceira participação consecutiva numa fase final de um Campeonato do Mundo (2002, 2006, 2010), fez o pleno nas grandes competições dos últimos dez anos e não perde um jogo oficial fora de casa há 20 jogos. O último foi contra a Ucrânia, 1-2, em 1997.

Greves 70 mil sul-africanos trabalham na construção dos novos estádios. Recebem cerca de 220 euros por mês e já ameaçaram fazer greve. O sistema hoteleiro também tem deficiências – há um défice de 15 mil quartos.

Projecto Dos seis países africanos que vão estar presentes no Mundial’2010, apenas a Argélia não está prevista no itinerário de Road to World Cup. A viagem durará seis meses, com uma média de 10 dias de estadia em cada país.