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Archive for Novembro, 2009

Quando falamos de Patrimónios da Humanidade, desenhamos imediatamente no nosso imaginário os contornos do Coliseu de Roma, do palácio de Taj Mahal, na Índia ou das ruínas incas de Machu Pichu, no Perú. A África, exceptuando as pirâmides egípcias, não associamos obras arquitectónicas de grande gabarito, majestosas evocações ao passado em forma de monumento ou descobertas arqueológicas de interesse global. Puro engano. A UNESCO reconheceu 106 locais em África, distribuídos por 32 países, como Património da Humanidade. Muitos deles são reservas naturais mas também constam imensos monumentos e reservas arqueológicas, templos e centros históricos de cidades. A nossa viagem vai passar por 15 países referenciados na lista da UNESCO, que somam 49 locais Património da Humanidade. Possivelmente, não teremos tempo nem disponibilidade para visitá-los todos mas vamos fazer o possível para conhecermos tantos quanto podermos. De seguida, deixo uma lista com a referência desses locais e o seu ano de inscrição na lista dos locais mais belos do planeta. Uma oportunidade para mostrar que a nossa vista não vai padecer de insuficiência de beleza, mas sim de uma dilatação de retina para poder absorver tantas preciosidades.

MARROCOS

Medina de Fez (1981)

Fundada no século IX e local da mais antiga universidade do mundo, Fez atingiu o seu apogeu nos séculos XIII e XIV, sobre o controlo dos Merínidas, quando substituiu Marraquexe como capital do reino. O planeamento urbano e a maior parte dos monumentos – madraçais, foundouks, palácios, residências, mesquitas e fontes – datam desse período. Embora a capital política de Marrocos se tenha transferido para Rabat em 1912, Fez permanece a sua capital cultural e espiritual.

Embora seja frequentemente referida como “Medina de Fez”, Fez tem duas medinas: Fès El Bali e Fès Jdid.

Medina de Marraquexe (1985)

 

A Medina de Marraquexe é a cidade fortificada, ou medina da cidade de Marraquexe, em Marrocos.

Fundada por volta de 1071 pelos Almorávidas, Marraquexe permaneceu um importante centro cultural, económico e político por um grande período de tempo. A sua influência espalhou-se por todo o mundo islâmico, desde o Norte de África a Andaluzia. Tem vários monumentos impressionantes datando desse período: a Mesquita de Koutoubia, o Kasbah, jardins, portas monumentais, etc. Mais tarde surgiram mais impressionantes monumentos: o madraçal de Ben Youssef, o Palácio de Bahia, os Túmulos Saadi, várias monumentais residências e a Praça Jemaa El Fna (na foto).

Ksar de Ait-Bem-Haddou (1987)

Ait-Ben-Haddou é uma cidade fortificada, ou ksar, em Souss – Massa – Draâ, Marrocos, na antiga rota de caravanas entre o Saara e Marraquexe. Situa-se numa colina à beira do rio Quarzazate. A cidade é constituída por um grupo de várias pequenas fortalezas, ou kasbahs, chegando a ter dez metros de altura cada uma. A maioria dos habitantes da cidade vivem agora numa aldeia mais moderna, no outro lado do rio; no entanto, dez famílias ainda vivem no ksar. Neste ksar foram filmados vários filmes famosos, incluindo Lawrence da Arábia, A Múmia, Gladiador e Alexandre, entre outros.

O Ksar foi fundado em 757, e começou como a casa de uma família apenas, no entanto a povoação cresceu até ao seu tamanho actual. O túmulo do seu fundador, Ben-Haddou está na base da colina, por trás da povoação.

Cidade Histórica de Meknès (1987)

A Cidade Histórica de Meknès situa-se em Meknès, Marrocos. Meknès foi construida há mais de 350 anos e continua a abrigar mesquitas, palácios, e jardins. A cidade histórica é rodeada por uma enorme muralha de 40km de ameias e torres. Uma das principais atracções é o Palácio de Dar El Kebira construído pelo sultão Moulay Ismail no séc. XVII.

A outrora capital de Marrocos foi fundada no século XI como uma cidade militar e escolhida por Moulay Ismail em 1672 como capital do reino. O sultão construiu a sumptuosa capital em estilo hispano – mourisco, cercada por paredes altas com grandes portas que hoje mostram a mistura harmoniosa de estilos islâmicos e europeus do Magreb no século XVII.

Medina de Tétouan (1997)

A Medina de Tétouan é a antiga cidade islâmica de Tétouan, Marrocos. É muito característica e tradicional. As casas da medina são quase todas brancas e baixas. Em toda a medina existem artesãos, como tecelões, joalheiros, etc. Existem também muitos vendedores de rua, que vendem carpetes a turistas.

Tétouan teve muita importância no período islâmico, pois serviu como principal ponto de contacto entre Marrocos e a Andaluzia. Depois da Reconquista, a cidade foi reconstruída por refugiados andaluzes que haviam sido expulsos pelos espanhóis. Isto é bem demonstrado pela sua arquitectura, que revela influência Andaluzia. Embora seja uma das mais pequenas das medinas marroquinas, Tétouan é a mais completa, e foi praticamente intocada.

Sítio Arqueológico de Volubilis (1997)

 

Volubilis são as ruínas de uma cidade romana perto de Meknès, em Marrocos. A cidade mais próxima é Moulay Idriss. Volubilis era uma importante cidade romana localizada perto da fronteira oeste do Império Romano. Foi construída no sítio de uma antiga povoação cartaginesa (pelo menos) do século III, que por sua vez foi construída nas ruínas de uma povoação neolítica.

Volubilis, na antiguidade, foi o centro administrativo da província de Mauretânia Tingitana. Tornou-se próspera devido ao comércio de trigo, animais selvagens e azeite. Os arqueólogos detectaram a presença de uma comunidade judia na cidade.

Os romanos evacuaram a maior parte de Marrocos no século III, mas Volubilis não foi abandonada. No entanto, pensa-se que foi destruída por um terramoto em fins do século IV. Foi reocupada no século VI.

Os textos que se referem à chegada de Idris I em 788 mostram que a cidade estava sobre o domínio da tribo Awraba, que lhe deu as boas-vindas e o tornou imame pouco depois. Em três anos consolidou o seu domínio em muita da área, fundou a primeira povoação em Fez e começou a fabricar moedas. Morreu em 791, deixando a sua mulher awraba grávida e o seu fiel escravo, Rashid, que tomou o papel de regente até à maioridade de Idris II. Neste momento a corte partiu para Fez, deixando os Awraba em controlo da cidade.

A cidade foi danificada pelo Terramoto de Lisboa, e no século XVIII parte do mármore foi levado para construções em Meknès.

As escavações foram iniciadas pelos franceses em 1915. Grandes partes da cidade foram postas a descoberto. 2000 escavações realizadas pelo University College London e pelo Institut National des Sciences de l’Archéologie et du Patrimoine de Marrocos sobre a direcção de Elizabeth Fentress, Gaetano Palumbo e Hassan Limane revelaram aquilo que provavelmente era o quartel-geral de Idris I e uma secção da cidade medieval.

Medina de Essaouira (2001)

 

Essaouira (antiga Mogador) é uma cidade da costa atlântica de Marrocos. Tem cerca de 72 mil habitantes.

Os portugueses sob o comando de Diogo de Azambuja construíram aqui um forte, designado por Castelo Real de Mogador, em 1506. Em 1525 este castelo foi conquistado pelos marroquinos.

Até ao século XVIII constituía-se apenas em um pequeno porto. Nessa época o sultão de Marrocos escolheu a localidade para ser o porto exportador do país. Passou então a designar-se Essaouira, embora nunca tenha chegado a atingir uma grande dimensão.

O conjunto histórico da cidade encontra-se classificado como Património Mundial pela UNESCO. Nele destacam-se as muralhas e baluartes, onde ainda podem ser apreciadas as antigas peças de artilharia portuguesas, assim como a primitiva igreja e as fortificações na pequena ilha de Mogador, fronteira ao porto.

Cidade Portuguesa de Mazagão (El Jadida) (2004)

Mazagão foi uma possessão portuguesa em Marrocos, no norte da África, correspondendo à actual cidade de El Jadida, 90 km para sudoeste de Casablanca.

Fundada em 1513 como entreposto comercial, a cidade resistiu à soberania islâmica à custa de grande esforço e investimento da Coroa portuguesa, adicionalmente para atender às frotas que faziam a Rota do Cabo. A reedificação da fortaleza foi encomendada aos maiores arquitectos italianos e espanhóis, numa altura em que se transitava da guerra neurobalística para a pirobalística, ou seja, das armas de arremesso (como as catapultas, por exemplo) para as armas de fogo. Assim se justifica a inclinação das muralhas, que deste modo repelem impacto das armas de fogo, assim como o alargamento das ameias, para a colocação das colubrinas, canhões e demais dispositivos.

No ano de 1541, no reindado de João III de Portugal foram demolidas as estruturas defensivas existentes, que estavam ultrapassadas, sendo substituídas por outras em molde renascentista, segundo se pensa consoante o plano de Diogo de Torralva e possivelmente outros engenheiros de renome como João de Castilho. A prova da sua inexpugnabilidade foi a resistência a um forte cerco islâmico em 1562.

Em 1769, o Marquês de Pombal, ministro durante o reinado de José I de Portugal, decidiu que toda a cidade seria transferida para a Amazônia, no Brasil, outra região sob controle português que necessitava de garantias de soberania. Assim, a fortificação foi abandonada e arrasada, tendo os seus habitantes partido para a América do Sul, onde fundaram a vila de Nova Mazagão (actualmente apenas Mazagão, no Amapá).

Do conjunto, destacam-se a antiga Igreja da Assunção e a antiga cisterna, em estilo manuelino. No entanto, a fortificação mostra o cruzamento entre as culturas europeia e marroquina, tanto na arquitectura, como na técnica construtiva e no urbanismo.

A Fortaleza de Mazagão, foi classificada, em 2009, como uma das Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo.

MAURITÂNIA

Parque Nacional do Banco de Arguim (1989)

 

O Parque Nacional do Banco de Arguim (francês:Parc National du Banc d’Arguin) situa-se na costa oeste da Mauritânia. O parque é o sítio de reprodução de várias aves migratórias , tais como flamingos, pilritos-de-bico-grosso, pelicanos ou andorinhas-do-mar, cujo sítio de reprodução mais frequente são os bancos de areia, incluindo as ilhas de Tidra, Niroumi, Nair , Kijji e Arguim.

É uma reserva natural que foi estabelecida para proteger ambos os recursos naturais e a pesca, que dá uma importante contribuição para a economia, assim como sítios geológicos de importância cientifica e estética. O parque é casa de milhões de pássaros migrantes vindos da Europa, Sibéria, Gronelândia, entre outros locais. O clima temperado e ausência de perturbação humana fazem do parque um dos mais importantes sítios do mundo para aves. A população de aves é notável pelo seu grande número e diversidade. Entre 25 000 e 40 000 casais de pássaros pertencentes a 15 espécies diferentes vivem no parque, fazendo destas as maiores colónias de anatídeos na África Ocidental.

Antigos Ksour de Ouadane, Chinguetti, Tichitt e Oualata (1996)

 

Os antigos Ksour (ou “cidades fortificadas”) de Ouadane, Chinguetti, Tichitt e Oualata, na Mauritânia são cidades fundadas nos séculos XI e XII para responder às necessidades das caravanas que atravessavam o Sahara. De centros comerciais e religiosos, estas cidades tornaram-se baluartes da cultura islâmica, testemunhos dum modo de vida tradicional, centrado na cultura nómada, das populações do Sahara ocidental. Nelas se encontra especialmente bem conservado um tecido urbano elaborado entre os séculos XII e XVI, com as suas casas com pátio interior fechando-se em ruelas estreitas, em redor de mesquitas com minaretes quadrados.

Localizadas no maciço de Adrar, que atravessa a Mauritânia, entre os desertos de Majabat El Koubra e de Aouker, Ouadane e Chinguetti, encontram-se a norte, Tichitt e Oualata, a sueste. Estas cidades, que já foram prósperas, sobrevivem com muitas dificuldades, não só pela mudança radical das rotas comerciais, mas principalmente pelo avanço das areias do deserto.

SENEGAL

Ilha de Gorée (1978)

 

A Ilha de Gorée ou Ilha de Goréia, localiza-se ao largo da costa do Senegal, em frente a Dakar, na África Ocidental.

Foi, entre os séculos XV e XIX, um dos maiores centros de comércio de escravos do continente, a partir de uma feitoria fundada pelos Portugueses. Esse entreposto foi, ao longo dos séculos, conquistado e administrado por holandeses, ingleses e franceses.

A sua arquitectura é caracterizada pelo contraste entre as sombrias casernas dos escravos e as elegantes mansões dos seus mercadores.

Gorée, classificada em 1978 como Património da Humanidade é um símbolo da exploração humana e uma escola para as gerações actuais, com grande importância para a diáspora africana.

Santuário Nacional de Aves de Djoudj (1981)

O Santuário nacional de aves de Djoudj ou Reserva ornitológica nacional Djoudj é um parque nacional do Senegal, desde 1971. Em 1980, a Convenção de Ramsar reconheceu-a como zona húmida de importância internacional e passou a ser reconhecido como Património Mundial pela Unesco em 1981.

Está situada no delta do rio Senegal, a norte de Ross-Béthio e a nordeste de Saint-Louis. Com 160 km ², é o habitat de uma grande quantidade de aves migratórias que atravessam o Sahara para aí passar o inverno, vindos da Europa e do Norte da Ásia. Das aves aquáticas e palmípedes que caracterizam a região destaca-se o pelicano-vulgar (Pelecanus onocrotalus), os flamingos, a marreca-piadeira (Dendrocygna viduata); o colhereiro-branco (Platalea alba); a garça-de-dorso-verde (Butorides striatus), o papa-ratos (Ardeola ralloides), o maçarico-bastardo (Tringa glareola) e o grou-coroado (Balearica pavonina).

Parque Nacional de Niokolo-Koba (1981)

O Parque Nacional de Niokolo-Koba situa-se 650 km a sudeste de Dakar, no Senegal.

Foi criado em 1954 e é um santuário de vida selvagem senegalês om uma superfície de 913.000 hectares.

Tem cerca de 1500 espécies de plantas, ou seja 78% das florestas do Senegal. Tem 20 espécies de anfíbios, 60 espécies de peixe, 38 espécies de répteis, 80 espécies de mamíferos como: búfalos, hippotragus (uma espécie de antílope), elandes (outra espécie de antílope), elefantes, leões, leopardos, hienas, chimpanzés, hipopótamos e Kobo Defassa, além de 330 espécies de pássaros.

Saint-Louis (2000)

Saint-Louis é uma cidade localizada na ilha de Saint-Louis, no Senegal e capital da região. Localizada no noroeste do Senegal, perto da foz do rio Senegal e 320 km a norte de Dakar, a capital, tinha uma população oficial estimada em 176.000m em 2005.

Saint-Louis foi a primeira povoação permanente no Senegal, porque oferecia um bom porto e estruturas defensivas.

Os ingleses tomaram posse da cidade, mas esta foi devolvida aos franceses em 1817. O governador dessa época era o Coronel Schmalz, um dos sobreviventes do naufrágio da La Méduse.

O desenvolvimento de Saint-Louis no século XIX deve-se principalmente ao General Faidherbe. O general concretizou obras de larga escala, como a Ponte Servatius, que liga a ilha aos distritos Guet-Ndar e Ndar-Toute, a Câmara Municipal, e, em 1833, inaugurou o caminho-de-ferro Saint-Louis/Dakar.

Actualmente, Saint-Louis é uma cidade universitária por excelência.

Aqui situam-se a Academia Militar Charles Ntchorere e a Universidade Gaston Berger.

Círculos de pedra da Senegâmbia (2006)

Os círculos de pedra da Senegâmbia são monumentos megalíticos situados na Gâmbia e no Senegal, ocupando uma faixa de 100 km de largura, ao longo de cerca de 350 km do Rio Gâmbia. São quatro grandes grupos de círculos de pedras, que representam uma extraordinária concentração de 1000 monumentos.

Os quatro grupos, designados Sine Ngayène, Wanar, Wassu e Kerbatch somam 93 círculos de pedra e incluem ainda túmulos e campas, alguns dos quais foram escavados, revelando material que sugere uma época entre o século III a.C. e o século XVI. O conjunto é uma área considerada sagrada pelos locais e foi construída ao longo de mais de 1500 anos.

As pedras são grandes colunas de laterite com cerca de dois metros de altura e um peso de sete toneladas cada, foram cortadas com instrumentos de ferro e cuidadosamente esculpidas em pilares quase idênticos de secção circular ou poligonal. Cada círculo é formado por oito a 14 pilares, dispostos num círculo com 4-6 metros de diâmetro e encontra-se localizado ao lado de um túmulo.

Os Círculos de Pedra da Senegâmbia representam uma sociedade próspera, muito organizada e que durou centenas de anos. Provavelmente, esta cultura megalítica estaria representada numa extensa região da África ocidental.

MALI

Tombuctu (1988)

A cidade de Tombuctu (em francês Tombouctou e na língua koyra chiini Tumbutu; por vezes escrita Timbuktu) é capital da região com o mesmo nome. Localiza-se no centro do Mali. Apesar de não mostrar o esplendor da sua época áurea, no século XIV, e estar a ser engolida pela areia do Saara, ainda tem uma importância tão grande, como depósito de saber, que foi inscrita pela UNESCO, em 1988, na lista do Património Mundial.

A prestigiosa universidade corânica de Sankoré, onde 50 mil sábios muçulmanos ajudaram a espalhar o Islão através da África Ocidental, ainda funciona, embora com um número mais reduzido de apenas 15 mil estudantes. Tombuctu alberga ainda o famoso Centro Ahmed Baba, com a sua fantástica colecção de 20 mil manuscritos árabes antigos, que retratam mais de um milénio de conhecimento científico islâmico e várias madraças. A cidade tem três mesquitas principais, Djingareyber, construída em barro, de 1325, Sankoré et Sidi Yahia.

Antigas Cidades de Djenné (1988)

Habitada desde 250 a.C., Djenné foi um grande mercado e uma importante cidade na rota de comércio Trans-Saariana. Nos séculos XV e XVI, era um dos principais centros para a propagação do islão. No passado, Djenné foi um centro de comércio e aprendizagem, e foi conquistada várias vezes desde a sua fundação. Das suas casas tradicionais, quase 2 000 sobreviveram. A cidade, atravessada pelo rio Bani, situa-se na fronteira entre o deserto e a savana. Durante a época das chuvas, a cidade fica completamente cercada de água. É famosa pela Grande Mesquita de Djenné, originalmente construída em 1220 e reconstruída em 1907.

Falésias de Bandiagara (1989)

A Falésia de Bandiagara, no Mali, é uma fractura geológica de aproximadamente 200 km de extensão. Localizada entre a savana e a planície do Rio Níger, serviria então como refúgio natural para o povo Dogon: as suas paredes escarpadas de rocha ofereciam protecção e abrigo, por camuflarem perfeitamente as casas Dogon. Construídas da mistura de argila, palha e esterco de bovino, elas eram e ainda são quase indistinguíveis à distância. Esse mimetismo, nada casual, numa topografia belicosa, era de facto ideal. Erguidas junto às paredes mais altas do penhasco, essas casas só eram acessíveis através da escalada da rocha (algumas ainda o são), sobretudo aquelas que serviram de objecto para a ocupação inicial. O terreno, aqui e ali pontilhado de pedras soltas, dificultava a escravização dos seus membros por grupos de cavalaria. E, do alto da falésia, a vista privilegiada sinalizava a aproximação da ameaça quando ela ainda poderia ser evitada ou o seu impacto minimizado.

Túmulo de Askia (2004)

O Túmulo de Askia em Gao, Mali, é o que se pensa ser o local onde repousa Askia Mohammed I, primeiro imperador dos Songhai. Está classificado como Património Mundial pela UNESCO, e foi construído no fim do século XV.

O complexo inclui o túmulo piramidal, com 17 metros, duas mesquitas, um cemitério e um espaço para assembleias. É o primeiro exemplo de um estilo de arquitectura islâmica que, mais tarde, se espalhou pela região. O complexo foi construído em 1495, por Askia Mohamed I, o Imperador de Songhai. É o testemunho do poder e da riqueza que o império adquiriu nos séculos XV e XVI, através do comércio trans-saariano. O complexo foi construído quando Askia, vindo de Meca, declarou o islão a região oficial do império.

A UNESCO descreve o túmulo dos Askia como um exemplo monumental das tradições de construção com lama existentes no Oeste Africano do Sahel.

BURKINA FASO

Ruínas de Loropéni (2009)

Este lugar de 11.130m2 é o primeiro do Burkina Faso a ingressar na lista. Destacam-se os impressionantes muros de pedra da melhor conservada das dez fortalezas da zona de Lobi. Faz parte de um conjunto mais amplo de cem recintos de pedra que testemunham a importância do comércio do ouro através do Sahara.

 

Recentemente, comprovou-se que estas ruínas situadas nas fronteiras com o Gana, Togo e Costa do Marfim, têm, no mínimo, dez séculos de antiguidade.

Esta base foi ocupada pelos povos lohron e kulango, que controlavam a extracção e transformação do ouro na região durante o seu período de apogeu, entre os século XIV e XVII.

COSTA DO MARFIM

Reserva natural integral do Monte Nimba (1981, 1982)

O Monte Nimba, localizado na fronteira entre a Guiné, a Libéria e a Costa do Marfim, com uma altitude de 1752 metros, é coberto por florestas densas, tendo no seu sopé pastagens de montanha. Estes habitats são especialmente ricos em flora e fauna, com várias espécies endémicas, como o sapo vivíparo e chimpanzés que usam pedras como instrumentos.

A Reserva natural integral do Monte Nimba foi declarada em 1943 na Costa do Marfim e em 1944 na Guiné. O sector guineense foi internacionalmente reconhecido como Reserva da Biosfera em 1980 e, em 1981, foi inscrito pela UNESCO na lista dos locais que são Património da Humanidade; o sítio foi alargado em 1982 para incluir o sector marfinense. Contígua a estas reservas, a da Libéria foi já proposta para ser igualmente incluída.

A reserva natural do lado guineense tem 13 mil hectares, enquanto que a marfinense tem 5000. A Reserva da biosfera (Guiné) tem 17 mil hectares.

No entanto, a reserva foi inscrita em 1992 na Lista do Património Mundial em Perigo como resultado de dois factores: a proposta de concessão de uma mina de ferro a um consórcio internacional e a instalação de um grande número de refugiados na parte guineense do monte. Apesar do governo da Guiné ter criado um “Centro de Gestão do Ambiente do Monte Nimba” e de se terem redefinido os limites da zona, em 1999 continuava ainda de pé o projecto da mina, embora fora da região protegida e tendo, tanto o governo, como os investidores, assegurado à comunidade internacional de que farão todos os esforços para manter a integridade ecológica do local.

Parque nacional de Taï (1982)

O Parque Nacional de Taï é um parque nacional na Costa do Marfim que contem uma das últimas áreas de floresta tropical preliminar da África ocidental. Foi inscrito como Património Mundial da UNESCO em 1982 devido à sua flora e fauna – especialmente aquela que está em perigo como os hipopótamos-pigmeus. Cobre uma área de 3.300 quilómetros quadrados.

Parque nacional do Comoé (1983)

O Parque nacional da Comoé é o maior dos parques e reservas da Costa do Marfim (1.150.000 hectares e 500 quilómetros de pistas), fundado em 1968, depois de existir por muito tempo sob o nome de Reserva de Bouna. Foi considerado Património Mundial pela UNESCO, em 1983. Localiza-se na região nordeste da Costa do Marfim, a 180 quilómetros da cidade de Bouna. É o mais antigo e o mais importante parque do país.

GANA

Fortalezas e castelos das regiões Volta, Greater Accra, Central e Western (1979)

As fortalezas e castelos das regiões Volta, Greater Accra, Central e Western são os remanescentes de antigos fortes-feitorias, erigidos pelos Europeus entre 1482 e 1786, e que ainda podem ser vistos por toda a costa do Gana, na África Ocidental.

Constituíam-se em entrepostos de comércio fortificados, estabelecidos inicialmente pelos portugueses em muitas regiões do mundo, durante a era de expansão marítimo-comercial, a partir do século XV.

Edifícios tradicionais da civilização Ashanti (1980)

Situados a nordeste de Kumasi, a capital da região do Ashanti, os edifícios tradicionais da civilização ashani, feitos de terra, madeira e palha, vulneráveis ao tempo e que constituem os únicos vestígios da civilização Ashanti, foram inscritos pela UNESCO, em 1980, na lista dos sítios considerados património mundial.

TOGO

Koutammakou, País dos Batammariba (2004)

A região Koutammakou no nordeste do Togo, estendendo-se para o vizinho Benin, é o domínio dos Batammariba (também chamados Katammariba ou Temberma), onde se encontram as famosas casas de barro em forma de torre, chamadas Takienta (ou Tatas), únicas em África, e que se tornaram um símbolo de Togo. Nesta paisagem cultural, de 50 mil hectares, a natureza está fortemente associada aos rituais e crenças desta população, que utiliza os seus recursos de forma harmoniosa e, por essa razão, foi inscrita na lista do Património Mundial pela UNESCO, em 2004.

As Takienta são circulares e têm geralmente dois andares, por vezes encimadas por um celeiro, também feito de terra, de forma quase esférica. Outras têm telhado plano e outras ainda são cobertas por capim, numa forma cónica. O conjunto da habitação compreende sempre um celeiro, um estábulo para as cabras e um pátio usado para as cerimónias rituais. A aldeia, de que Nadoba é um exemplo bem conhecido e procurado pelos turistas, inclui ainda outros espaços cerimoniais, como fontes, rochas, locais para os ritos de iniciação e, por vezes, catacumbas para os seus mortos.

Os Katammariba, cujo país é atravessado pelo rio Kéran, são ainda conhecidos pela criação de galinhas do mato e pela comercialização dos seus ovos. No entanto, esta riqueza cultural não se traduziu no melhoramento das condições de vida deste povo. Apesar das centenas de milhares de turistas que anualmente visitam Nadoba e que deixam no país biliões de francos CFA, a estrada que ali conduz continua em terra batida e impraticável durante a época das chuvas. Os jovens são forçados a emigrar para as cidades e assim vão perdendo muitas das suas características culturais, incluindo a própria construção e manutenção das Takienta. Finalmente, a cultura do algodão e o gado permitem a alguns construir casas melhoradas e, assim, descurar as tradicionais, muitas das quais se encontram a cair em ruínas.

BENIN

Palácios Reais de Abomei (1985)

Os palácios reais do Abomey são um grupo de estruturas construídas em barro pelos povos Fon entre meados do século XVII e finais do século XIX. Um dos locais tradicionais mais famosos e historicamente significativos da África ocidental, os palácios constituem um dos sítios considerados pela UNESCO em 1985 como Património da Humanidade e também como Património Mundial em perigo, devido aos estragos provocados por um ciclone. A cidade era circundada por uma muralha de lama, atravessada por seis portões, e protegida por uma vala de 1,5 metros de profundidade, preenchida com uma sebe densa de acácia espinhosa, a defesa usual das fortalezas africanas ocidentais. Dentro das paredes, estavam as vilas separadas por campos, por diversos palácios reais, por uma praça de mercado e por um campo grande que continha as prisões. Em Novembro de 1892, Behanzin, último rei independente do Daomé, sendo derrotado por forças coloniais francesas, ateou fogo a Abomey e fugiu para o norte. A administração colonial francesa reconstruiu a cidade e conectou-a com a costa através de caminhos de ferro, trazendo Abomey ao mundo moderno.

Quando a UNESCO designou os palácios reais de Abomey como Património da Humanidade em 1985, registou que entre 1625 e 1900, doze reis sucederam um ao outro na cabeça do reino poderoso de Abomey. À excepção do rei Akaba, que usou um local separado, cada um teve seu palácio construído dentro da mesma área, considerando o uso do espaço e dos materiais de acordo com palácios precedentes. Os palácios reais de Abomey são a única lembrança deste reino desaparecido.

Desde 1993, 50 dos 56 baixos-relevos que decoravam as paredes do palácio do rei Glelê (18581889) (denominado agora Salle des Bijoux ou “Sala das Jóias”) foram removidos e substituídos na estrutura reconstruída. Os baixos-relevos trazem um código iconográfico que expressa a história e o poder dos Fon.

Fonte: Wikipedia, Unesco

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Uma viagem de mais de 30 mil quilómetros por África costuma ser imediatamente associada aos mais devastadores perigos e às mais implacáveis catástrofes. Costumam alertar-nos para os perigos da navegação no deserto do Saara, onde a mais pequena desorientação pode resultar em fome, sede, miragens e morte. É também frequente chamarem-nos a atenção para a possibilidade de ocorrência de um golpe de Estado ou de uma situação de conflito social, em que a nossa pele passa a ser motivo para um linchamento. A isso, juntam-se os checkpoints na estrada, em que muitos afirmam ser frequente apontarem armas de fogo à cabeça dos viajantes para, pelo medo, conseguirem ficar com parte do recheio do veículo. Outros ainda, profetizam cheias, estradas que se transformam bruscamente em leitos torrenciais na época das chuvas, submergindo todos aqueles que circulem nos seus domínios.

Não passam de meras e improváveis possibilidades que, quanto a nós, são contornadas com uma preparação cuidadosa da viagem. Contudo, os maiores e os mais perigosos dos inimigos são seres ignotos, misteriosos, microscópicos e ferozes. Chamam-se vírus ou bactérias, estão disseminados por África e não têm misericórdia para com os viajantes do Norte. Por isso, uma viagem tão longa como a nossa requer a administração de um conjunto de vacinas que garantam os anticorpos necessários para uma batalha intravenosa com os vírus mais numerosos e comuns do continente. Uma luta penosa e sanguinária mesmo dentro do nosso corpo. Contamos com a vitória dos anticorpos.

Visitámos a Clínica de Medicina Tropical e do Viajante, onde fomos recebidos por um dos maiores especialistas nacionais nesta matéria: Jorge Atouguia. O médico defende que não é necessária a prescrição de um extenso inventário de vacinas para uma travessia terrestre de África. Inicialmente, é feito um questionário e um rastreio para detectar eventuais doenças. No caso de não existirem problemas crónicos, Atouguia recomenda apenas as vacinas obrigatórias – febre amarela e febre tifóide. Além disso, certifica-se da actualização das vacinas feitas na infância – tétano, BCG e hepatite A e B. Caso não existam defesas para alguma destas doenças, o médico recomenda nova vacinação. Quanto à raiva, que pode resultar de uma hipotética mordidela de um cão ou de um macaco e à cólera, resultante de epidemias pontuais (mais frequentes em situações de cheias ou contaminação da água), Jorge Atouguia recomenda que a prevenção apenas seja feita quando a situação no terreno assim o exija.

Contudo, falta a mais temível das ameaças. A que se esconde no interior de uma pequeno monstro com asas, um mosquito de aspecto inofensivo mas com ofensivas letais – a malária. A prevenção da malária não pode ser feita através da administração intravenosa de uma substância protectora. A profilaxia da malária pode ser realizada de diversas formas e os profissionais do sector continuam a divergir sobre qual a mais eficaz. Olhando os contornos da nossa viagem, foi-nos recomendada a ingestão de um comprimido semanal de Mephaquin. Caso a profilaxia com Mephaquin não seja eficaz, transportaremos na bagagem algumas embalagens de Malarone para travar os efeitos da doença. Quando lhe mostrámos o nosso itinerário, o médico desenhou imediatamente um polígono convexo sobre a área do continente com maior taxa de risco. As suas extremidades tocavam no Senegal, a Norte, e na África do Sul, no ponto oposto. Uma área que açambarcava toda a África negra, Ocidental e Central com maior incidência e a Austral, com probabilidades menores. Como vamos percorrer parte da África tropical em época de chuvas, a prevalência de mosquitos é significativamente maior. O Mephaquin fará parte da nossa viagem desde St. Louis, no Senegal, até à entrada no país organizador do Mundial.

Um dos pormenores mais interessantes que aprendi na consulta foi que as diarreias são as principais vingadoras das injustiças sociais. “Se vocês comerem numa tasca do Senegal, podem apanhar diarreia, assim como um sueco também a pode apanhar se almoçar numa tasca de Lisboa. Já um africano, muito dificilmente fica doente a comer num país europeu, pois o seu corpo já está mais imune à presença de vírus”. Ou seja, o vírus intestinal prefere tripas mais tenras, lavadinhas, habituadas à passagem de manjares do bom e do melhor. Quando o intestino do europeu recebe a visita de uma carne mal passada ou apodrecida num restaurante africano, revolta-se e vira-se ao contrário, provocando dores horríveis ao hospedeiro e, em casos extremos, causando a sua morte. Já o calejado intestino do africano é à prova de bala. Por muito que o bicho lhe roa as vilosidades, o órgão não se queixa – está habituado à fome, a restos e a vermes, já não chora nem sangra por tudo e por nada. Concluindo, quanto mais rico for o turista que visita África mais probabilidades tem de passar a viagem fechado na casa de banho. Até pode evitar o degredo, almoçando e jantando em restaurantes caros com iguarias europeias. Mas, à mínima distracção, levando à boca uma couve murcha ou uma cenoura contaminada, o americano ou o escandinavo agarram-se ao duodeno, contorcem-se com dores e correm para uma casa de banho imunda, libertando com prazer os luxos podres que lhes percorrem as miudezas.

Seguindo o manual de Jorge Atouguia, deixo aqui uma breve descrição das prevenções a ter em relação à malária, à ingestão de água e alimentos e a lista de farmácia de viagem:

 MEDIDAS PREVENTIVAS CONTRA A MALÁRIA

A malária é transmitida pela picada de mosquitos fêmea em horário nocturno.

– A malária (ou paludismo) é produzida por um parasita sanguíneo (Plasmódio) transmitido ao homem pela picada (nocturna) de mosquitos fêmeas do género Anopheles (existem 30 espécies diferentes). Endémica em muitos países do mundo, é especialmente prevalente em África.

– A malária (principalmente o primeiro episódio) é uma doença grave e por vezes mortal. Nenhuma das medidas preventivas é 100% eficaz, mas permitem diminuir drasticamente o risco de doença e das suas complicações.

– A prevenção da doença baseia-se em duas medidas essenciais: evitar as picadas de mosquitos e a administração de medicamentos preventivos.

– As medidas para evitar as picadas dos Anopheles são sobretudo importantes no período de maior actividade do insecto (nocturno, entre o pôr e o nascer do sol) e incluem:

. Uso de vestuário que cubra o corpo o mais possível

. uso de repelente de insectos, aplicado nas áreas expostas e sobre as roupas

– A medicação preventiva contra a malária deve iniciar-se sempre antes da partida, e ser, obrigatoriamente, prescrita por um médico especialista, uma vez que existem indicações e contra-indicações específicas dos medicamentos, em função das características individuais do viajante e dos países de destino.

– A medicação preventiva deverá prolongar-se por um período de quatro semanas após a saída da área onde existe malária. Se ocorrerem efeitos secundários durante este período, levando à descontinuação da profilaxia inicial, o tratamento deverá ser completado com um medicamento de segunda escolha, adaptado ao país visitado.

– Mesmo sob medicação preventiva quaisquer sinais de febre ou sintomas de gripe deverão ser imediatamente investigados. A febre poderá ocorrer por períodos intermitentes, podendo igualmente surgir dores de cabeça, dores generalizadas, tremores, vómitos e diarreia. Poderão surgir crises de malária durante vários anos após a exposição.

MEDIDAS PREVENTIVAS CONTRA AS DOENÇAS TRASMITIDAS ATRAVÉS DA ÁGUA E ALIMENTOS

A ingestão de água canalizada é proibitiva.

A diarreia é o problema de saúde mais frequente naqueles que viajam, e está directamente relacionada com o contacto com água ou alimentos. Embora possa ser causada por uma simples mudança dos hábitos alimentares, na maioria dos casos é consequência de uma infecção causada por bactérias ou vírus. A prevenção da diarreia baseia-se nos seguintes pontos:

1 – Utilizar a água da rede pública exclusivamente para limpezas (excepto lavar os dentes) e para cozinhar.

2 – Beber apenas água engarrafada (preferir a gaseificada e de marcas conhecidas).

3 – Evitar os cubos de gelo preparados com água duvidosa (mesmo quando usados com bebidas alcoólicas).

 4- Preferir sempre alimentos devidamente cozinhados e consumi-los imediatamente após a sua confecção ou, em alternativa, as refeições enlatadas.

5- Evitar alimentos crus (saladas, carne, peixe, marisco, vegetais) ou que tenham sido confeccionados há algum tempo (atenção aos buffets).

6 – Preferir a fruta facilmente descascável ou previamente cozinhada; a fruta em calda também é geralmente segura.

7 – Evitar os gelados artesanais (preferir os industriais e já embalados)

8 – O pão, os biscoitos, as tostas e os bolos são habitualmente seguros.

9 – Evitar o leite, o iogurte, ou o queijo que não sejam pasteurizados ou fervidos (o leite em pó é seguro se dissolvido em água de boa qualidade).

10 – Bebidas como o vinho, a cerveja, os sumos industriais, o chá ou o café são habitualmente seguras.

11 – Lave bem as mãos antes e depois das refeições, e ao sair dos lavabos.

12 – Antes da viagem, fazer a vacina contra a febre tifóide. Se não estiver imunizado deve igualmente fazer a vacina contra a hepatite A.

FARMÁCIA DE VIAGEM

Seringas, repelentes e medicamentos são indispensáveis à viagem.

Em viagem pode ser muito útil dispor de medicamentos sem ter de recorrer a cuidados médicos ou a farmácias locais. Para além da barreira da língua, em muitos países menos desenvolvidos, a qualidade dos medicamentos é por vezes duvidosa (origem, armazenamento, conservação).

Para evitar passar por estes problemas, leve consigo um conjunto de objectos e medicamentos para as situações mais comuns:

– Medicamentos para prevenção e auto-tratamento da malária.

– Repelentes de insectos.

– Medicamentos para o tratamento da diarreia.

– Analgésicos e antipiréticos.

– Anti-histamínicos

– Colírios de antibióticos para aplicação nos olhos (atenção às lentes de contacto).

– Creme com corticóides para aplicar na pele.

– Protector solar com factor de protecção superior a 15.

– Material para um penso simples (desinfectante, pensos rápidos).

– Agulhas, seringas e toalhetes com álcool (acompanhadas de relatório médico justificativo), se necessita de administração regular de medicamentos injectáveis.

– Termómetro digital.

– Preservativos.

– Medicação de uso crónico.

– Se usa óculos, leve um par de reserva.

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Numa manhã tristonha de Outono, peguei no livro de grandes reportagens compiladas por José Manuel Barata Feyo e sentei-me num confortável divã de areia, uma duna da praia do Baleal. São 16 histórias inspiradoras redigidas pelos melhores jornalistas portugueses. Parei na quarta; depois de me deleitar com as narrativas de Rui Araújo e de José Manuel Castanheira, esbarrei na impressionante história da viagem de Barata Feyo de Paris até ao coração de África. No meu imaginário, permanece a forma como contornou a passagem por uma ponte que não existia, o seu encarceramento no Togo, as longas esperas nos checkpoints e a corrida contra o tempo para passar o seu aniversário com um amigo nos Camarões. Levantei-me das dunas decidido a renovar a carteira profissional no dia seguinte.

O trabalho de Barata Feyo foi um dos que nos inspirou a desenvolver este projecto. Por isso, telefonamos-lhe para saber da sua experiência quais poderão ser as diferenças entre atravessar África em 1977 e em 2010. Este foi o resultado da conversa de 15 minutos.

Porque decidiu fazer em 1977 uma solitária viagem de jipe de uma ponta à outra de África?

Eu sempre tive uma grande atracção por África e pelas questões africanas e antes do 25 de Abril, tanto eu como os outros jovens portugueses, não tínhamos a oportunidade de viajar por África. Eu não tinha feito a tropa, não podia visitar as ex-colónias nem andar pelo restante continente, uma vez que todos os países estavam de relações cortadas com Portugal, exceptuando a África do Sul e a ex-Rodésia. A seguir ao 25 de Abril, parti assim que houve oportunidade e voltei a repetir a viagem, já a trabalhar para a RTP, em 1980.

Um dos objectivos da sua viagem era chegar aos Camarões no seu 30º aniversário, para festejar com um amigo seu. Porquê?

Sim, mas não saí de Paris com o propósito de chegar aos Camarões; o propósito era uma viagem ainda mais vasta por África. A ideia de ir passar o meu aniversário aos Camarões só ocorreu após meia dúzia de meses de viagem, lá para Junho ou Julho, quando, estando no Togo, pesava-me já um pouco estar sozinho e não encontrar ninguém conhecido há muito tempo. Ocorreu-me que tinha  um amigo relativamente perto – bem, relativamente perto eram uns milhares de quilómetros e uns países para atravessar -, e resolvi passar os meus 30 anos com ele. Ele trabalhava numa grande empresa de navegação francesa e ainda hoje mantenho contacto com ele. Mas o propósito era totalmente jornalístico e isso foi apenas um pormenor sobre o qual escrevi.

Até onde chegou?

Cheguei à fronteira de Angola, onde acabei por não entrar porque a pessoa que me ia facilitar as coisas, que tinha conhecido no exílio em Bruxelas e que era do MPLA, já tinha caído em desgraça e estava preso. Por isso, já não pude atravessar Angola onde, na altura, as estradas eram boas e era relativamente fácil viajar. Se o tivesse conseguido, teria chegado facilmente à África do Sul e subindo pelo outro lado, teria dado a volta inteira ao continente.

Quais foram as principais dificuldades e as coisas que o surpreenderam pela positiva?

O que mais me surpreendeu pela positiva foi a hospitalidade da população africana, principalmente na África negra, mas também nas zonas da África do Norte menos frequentadas por turistas. Tinham um enorme sentido de hospitalidade e uma enorme simpatia por qualquer viajante. Também o contacto com África, que é algo inesquecível – África chama por algumas pessoas como nenhum outro continente chama. Mas as dificuldades foram de muitas ordens. Primeiro, os problemas burocráticos e administrativos: passaportes, vacinas, vistos de entrada, vistos de saída, cartão de passagem para o jipe, seguros internacionais de viagem que só uma companhia suíça é que fazia, imensos problemas…Depois, havia os problemas das estradas. Não havia alcatrão, a viagem foi feita por pistas ou então a navegar, como no caso da travessia do Saara, que fiz pela pista central até à fronteira com o Níger. Aí, a viagem fazia-se em navegação por pistas que chegavam a ter 25 quilómetros de largura. Por vezes, os vestígios desapareciam por completo, sobretudo após as tempestades de areia. Tínhamos de navegar com recurso a mapas militares e bússola. Outra dificuldade na travessia do Saara é a água, porque quem se perde sem água tem meio caminho andado para se perder definitivamente e morrer de sede. Tem de se levar pastilhas para purificar a água porque, em África , mesmo a engarrafada pode ter problemas. Além disso, há que ter muito cuidado com o paludismo. Quanto ao resto…apanhei uma tentativa de golpe de Estado ou de invasão ao Togo por parte do Gana. É uma realidade histórica antiga esta da divisão da antiga Togolândia alemã, com o Togo para os franceses e o Gana para os ingleses. Fui considerado mercenário porque tinha um jipe com matrícula inglesa, passaporte português e seguro suíço. Até fiquei contente porque, fisicamente, não tenho nada a ver com um mercenário, não sou propriamente alto e espadaúdo. E depois, existiam os problemas inerentes a quem viajava por África naquela altura: as chuvas, as pontes que não existiam, os pneus que rebentavam. Mas eram problemas que acabam por ser atractivos.

Com uma diferença de 33 anos, quais considera serem as diferenças entre fazer a viagem quando a fez e a que nós vamos fazer em 2010?

Do ponto de vista material e técnico, vocês terão a vida bastante facilitada. Todos os problemas de navegação poderão ser resolvidos com um GPS, o que vos dará uma garantia extraordinária para não se perderem. Com as comunicações, também já não terão os mesmos problemas. Lembro-me que, quando fiz a viagem em 1980, saí de Portugal em Janeiro, o meu pai faleceu em Fevereiro e eu só soube da notícia a 10 de Maio, no Gana, quando o Papa lá foi e eu entrei em contacto com Lisboa. Hoje é possível estar no meio do Saara e, com um telefone de satélite, entrar em contacto com o Mundo inteiro. Com as estradas, infra-estruturas, navegação e comunicações, vocês terão a vida facilitada. Em contrapartida, penso que a grande qualidade que referi sobre a grande hospitalidade e simpatia das populações africanas, estará hoje consideravelmente reduzida. As coisas mudaram por causa do mau entendimento que se criou em relação ao ocidental, através da imagem que é transmitida do Norte do Mundo para o Sul através dos programas de televisão. A imagem do branco, e convém não esquecer que estamos a falar de uma viagem de um branco num continente de negros, não vale a pena estar com falsos paternalismos, e a reacção de hostilidade para com os europeus é incentivada por certos tipos de propaganda que, a meu entender, fragilizaram as relações. Poderá haver hoje mais hostilidade do que hospitalidade.

Com a sua enorme experiência, que conselhos nos daria para assegurarmos um bom trabalho?

Não perderem o contacto com a realidade e, sobretudo, irem para lá sem ideias pré-concebidas. Não há nada pior do que arrancar para uma reportagem num continente enorme como o africano ignorando a realidade. Vocês vão ter de documentar-se ao máximo sobre todos os países que vão atravessar, conhecer a sua história antes da independência e pós-independência. Isso é indispensável. E não olharem para ali com um olhar racista, isso seria inconcebível, nem com um olhar paternalista, que é outra forma de racismo. E, sobretudo, não olharem também com aquilo a que se chama”o remorso do homem branco”. Não é obrigação vossa ir para lá expiar as culpas daquilo que possa ter sido a relação histórica de Portugal com África. As coisas acontecem numa época histórica e é nessa época que têm de ser inseridas. A escravatura e a colonização eram fenómenos universais na época, perfeitamente compreensíveis. A própria escravatura não foi uma invenção dos portugueses, porque os árabes chegaram a escravizar portugueses e a subir até à costa de Inglaterra para capturar escravos. Irem sem complexo ou ideia pré-concebida e colarem-se à realidade tanto quanto possível, tendo como base o conhecimento histórico de África, é a minha melhor sugestão.

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Em 2007, a CAF (Confederation of African Football) elaborou a lista dos 30 melhores futebolistas africanos de sempre. Deixamos-lhe aqui os dez primeiros nomes, com uma breve biografia e com uma compilação vídeo dos seus melhores momentos.

1 – Roger Milla

Albert Roger Mooh Milla nasceu em Yaoundé, capital de Camarões, em 1952. O seu pai era maquinista, pelo que o pequeno Roger se habituou desde cedo a deslocar-se por todo o país. Começou a jogar aos 13 anos e aos 18 já era campeão nacional. Marcou mais de 300 golos na carreira e participou em três mundiais, competição em que detém um recorde importante: o de jogador mais velho a marcar um golo – em 1994, com 42 anos, contra a Rússia. O curioso é que Milla anunciou a sua retirada da selecção em 1987. Contudo, o presidente da Federação telefonou-lhe em 1990 para integrar a convocatória para o Mundial de Itália. Fez assim parte da célebre selecção camaronesa que conseguiu chegar aos quartos-de-final do Mundial, onde Milla apontou quatro golos. Quatro anos mais tarde, Milla voltou a apresentar-se nos EUA.

2 – Mahmoud El-Khatib “Bibo”

Este egípcio, desconhecido para a maioria dos europeus, tem um currículo impressionante: 10 campeonatos egípcios, 8 taças do Egipto e 2 Taças dos Campeões Africanos, pelo clube Al-Ahly e 1 Taça das Nações Africanas, representando a selecção dos “faraós”. Além disso, venceu a Bola de Ouro de 1983 para o melhor jogador africano e foi considerado a personalidade desportiva do século XX no mundo árabe. Bibo foi escolhido para o Comité de Fair-Play da FIFA por nunca ter levado um cartão em 450 jogos nacionais e internacionais. Acabou a carreira prematuramente, em 1988, porque o seu talento levava os adversários a derrubá-lo à pancada. As lesões acabaram por vencê-lo.

3 – Hossam Hassan

Hassan foi mais uma referência do melhor clube africano, o Al-Ahly, do Egipto. Este avançado, nascido no Cairo, tem o recorde de internacionalizações pela sua selecção (170) e marcou 69 golos com a camisola do seu país. Ganhou 11 ligas egípcias e três Taças das Nações Africanas. Além disso, foi um dos dois únicos jogadores a marcar no derby Al-Ahly – Zamalek ao serviço dos dois clubes. Tem um irmão gémeo, Ibrahim, que o acompanhou nos vários clubes que representou durante a carreira. Retirou-se com 42 anos, em 2007.

4 – Samuel Eto’o

Em Março de 1981, na cidade de Douala, nascia um dos melhores jogadores da actualidade. Samuel Eto’o é o melhor marcador da história da Taça das Nações Africanas, venceu duas Liga dos Campeões pelo Barcelona e tornou-se no terceiro melhor marcador da história do clube catalão. Casado, pai de três filhos, Eto’o é dos jogadores africanos que mais se tem revoltado contra manifestações racistas no estádios. O avançado actua agora no Inter de Milão, treinado por José Mourinho. Tem 210 golos em 417 jogos, é o melhor marcador da selecção de Camarões, foi considerado pela FIFA como o terceiro melhor jogador do Mundo (2005) e por três vezes nomeado melhor jogador africano (2003, 2004, 2005).

5- Abédi Pelé

O “cavalheiro” do futebol africano e um dos seus maiores embaixadores. Nasceu em 1964, na pequena aldeia de Oko, a nordeste de Acra, capital do Gana. Na verdade, Pelé é alcunha pelo seu precoce talento para a bola; o seu verdadeiro apelido é Ayew. Abédi foi considerado o melhor jogador africano em 1991, 1992 e 1993. Venceu ainda uma Taça dos Campeões Europeus pelo Marselha, em 1993, onde foi votado como o melhor jogador da final. Fez com Papin e Waddle um dos melhores trios de ataque dos anos 90. É também o melhor marcador de sempre do Gana.

6 – George Weah

Weah nasceu em Clara Town, um bairro de lata nos subúrbios de Monróvia, capital da Libéria. Em 14 anos de carreira, foi duas vezes campeão italiano, pelo AC Milan, uma vez campeão francês, pelo Paris Saint-German, e foi o melhor marcador da Liga dos Campeões 95-95. Venceu por três vezes o troféu de melhor jogador africano e, em 1995, tornou-se no único jogador do continente a vencer a Bola de Ouro da FIFA, para melhor jogador do Mundo. Actualmente é político e ficou em segundo lugar nas últimas eleições presidenciais na Libéria. Muitos consideram-no o melhor futebolista africano de sempre, contudo, nunca conseguiu alcançar a fase final do Mundial com a sua selecção liberiana.

7 – Didier Drogba

Drogba começou a jogar futebol num parque de estacionamento em Abidjan, na Costa do Marfim. Com 10 anos, foi viver com o tio para França e aos 15 começou a jogar num clube local dos subúrbios de Paris. Só assinou o primeiro contracto profissional com 21 anos. Apesar da profissionalização tardia, Drogba conseguiu brilhar no Marselha em 2003-04. Os seus 19 golos valeram-lhe uma transferência superior a 30 milhões de euros para o Chelsea. Drogba já conquistou ligas inglesas e tem presenças na final da Liga dos Campeões e da Taça UEFA. É o melhor marcador da selecção marfinense (41 golos em 60 jogos) e foi o melhor jogador africano em 2006.

8 – Nwankwo Kanu

O avançado nigeriano do Portsmouth, de 33 anos, é o único jogador da Premier League a ter vencido a Liga dos Campeões (Ajax) e a Taça Uefa (Inter de Milão). O seu nome, na língua Igbo, quer dizer “bebé que nasceu no dia de mercado de Nkwo”. Este bebé de 1,97m chamou a atenção do Ajax depois do Mundial de sub-17 e brilhou com o emblema holandês, tornando-se num dos avançados da sua geração com melhor palmarés: medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 1996, 3 ligas holandesas, 2 ligas inglesas, 1 Liga dos Campeões, 1 Taça Uefa e vencedor do prémio de melhor jogador africano em 1996 e 1999.

9 – Rabah Madjer

Imortalizado pelo golo de calcanhar que ajudou o FC Porto a bater o Bayern de Munique na final da Taça dos Campeões Europeus de 1986/87, Madjer tornou-se num dos deuses do futebol africano. Saiu do FC Porto com 50 golos em 108 jogos e ainda é o melhor marcador da selecção argelina, com 31 golos em 87 jogos. Ganhou a Taça das Nações Africanas, em 1990, foi o melhor jogador africano, em 1987 e ainda venceu a Taça Intercontinental e a Supertaça Europeia com a camisola dos portistas.

10 – Kalusha Bwalya

 O avançado da Zâmbia conquistou o reconhecimento internacional após marcar 3 golos na vitória da sua selecção frente à Itália de Roberto Baggio (4-0), nos Jogos Olímpicos de Seul’88. Kalusha foi então contratado pelo PSV Eindhoven, da Holanda, onde jogou seis anos e venceu dois campeonatos, fazendo dupla de ataque com Romário. Kalusha não estava no fatídico voo da selecção da Zâmbia que se despenhou no Oceano Atlântico, em 1993, vitimando todos os futebolistas. O avançado pegou na renovada equipa, levando-os, surpreendentemente, à final da Taça das Nações Africanas de 1994. Foi votado como melhor jogador africano de 1988.

P.S. – Permitam-me confessar a minha indignação pelo facto de o jogador que considero mais virtuoso aparecer somente na 12ª posição desta lista. Não consegui evitar…aqui ficam algumas imagens do nigeriano Jay Jay Okocha. Vale a pena esperar até meio do filme para ver o que Okocha faz ao temível irlandês Roy Keane.

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Entrevista em Palmela

Na página 15, os principais aspectos do projecto Road to World Cup.

A conversa estava marcada para as 10h da manhã, em Palmela. Às 9h, sentado à porta do prédio do repórter de imagem João Fontes, ouço o telemóvel tocar: “Tiago, vê se o meu carro está aí à porta. Se não estiver é sinal de que fui rebocado”, disse-me o João. O carro não estava. Toca a apanhar um táxi para Sete Rios, reclamar com o funcionário da EMEL, preencher impressos, levantar o carro…chegámos a Palmela com duas horas de atraso.

A jornalista Rosa Gonçalves e o editor Paulo Jorge Oliveira já estavam à nossa espera. Eles trabalham no jornal “Impacto da Região” e solicitaram a entrevista devido ao facto de João Fontes ser natural do Concelho, mais especificamente da freguesia de Pinhal Novo.

Uma das coisas que sempre me impressionou no João foi a sua ligação à sua terra, às suas raízes e aos seus amigos de sempre. O nome Pinhal Novo não lhe sai da boca sem uma entoação de orgulho e um sorriso nostálgico e, sempre que pode, atravessa a ponte para pisar por uns momentos o chão que tão bem conhece. Creio que para um ser com tiques nómadas como o João, é reconfortante ter um sedentário porto de abrigo que o acolha no regresso. Os grandes viajantes têm sempre necessidade de voltar a casa, à sua aldeia ou ao seu país, para contar as histórias que recolheram nos caminhos do Mundo; a partilha faz parte do seu processo de conhecimento.  Assim aconteceu com Fernão Mendes Pinto, Marco Pólo mesmo com o grego Heródoto. Assim acontece com o João. Viajar não faz sentido para ele se, depois de cruzar desertos e mares, não os entregar à terra que ama. Foi por isso com alegria que vi o João falar à jornalista daquilo que espera ver nesta viagem, deixando-me a imaginar as histórias que poderemos vir a partilhar com os fiéis marinheiros que sempre nos esperam no nosso porto de abrigo.

A luz em Palmela estava maravilhosa, numa esplanada virada para a serra, com o castelo nas costas. Respondemos a Rosa Gonçalves durante cerca de uma hora e o resultado dessa conversa pode ser visto na secção de imprensa deste blogue. O título faz referência a “um pinhalnovense a caminho do Mundial em África”. Que não se assustem no Pinhal Novo, porque este bom filho vai sempre tornar a casa.

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Faltavam 16 minutos para a Irlanda conseguir o seu objectivo. Depois de perder em casa contra a França, por 1-0, um golo de Robbie Keane na primeira parte alimentava a esperança dos milhares de eufóricos adeptos irlandeses nas bancadas do estádio Saint-Denis. A presença no Mundial estava perto de ser decidida nas grandes penalidades.

Mas, aos 104 minutos, Henry dominou a bola com a mão esquerda e cruzou para Gallas, que marcou o golo que apurou os franceses. Só o árbitro sueco Martin Hansson não viu a irregularidade de Henry, uma das mais escandalosas da história do futebol. O avançado do Barcelona não se limitou a tocar na bola, transportou-a na palma da sua mão até a deixar à mercê do seu pé direito. Até no voleibol, o movimento de Henry deveria ser penalizado.

“Devem estar todos a bater palmas, o Platini a falar ao telefone com o Sepp Blatter, ou provavelmente a mandar mensagens um para o outro, encantados com o resultado”, disse o capitão irlandês, Robbie Keane, após o encontro. Estas declarações devem valer-lhe uma multa pesada mas a indignação do britânico é compreensível – deve ser muito triste ser afastado desta forma da maior competição futebolística do mundo.

Não concordo com a implementação de tecnologias no auxílio das decisões do árbitro. O futebol é um jogo de precisão e de erro humano e uma máquina iria desvirtuar a génese do desporto. No entanto, creio que a FIFA deve procurar urgentemente formas de diminuir a incidência do erro. A melhor solução, na minha opinião, é a introdução de mais árbitros auxiliares, que já está a ser testada nos jogos da Liga Europa.

O afastamento da Irlanda por um erro de arbitragem foi um dos pontos negros da qualificação para o Mundial. Mas não foi um caso pioneiro. Veja este e mais alguns dos erros de arbitragem memoráveis em jogos decisivos.

A mão esquerda de Henry embalou a França para o África do Sul’2010

A “mão de Deus” de Diego Maradona eliminou a Inglaterra nas meias-finais do Mundial’86, no México

Em 1990, a mão direita de Vata levou o Benfica à final da Taça dos Campeões Europeus. Os encarnados bateram o Marselha por 1-0.

No Mundial 2002, a Coreia do Sul foi beneficiada nos jogos contra Itália e Espanha, nos oitavos e quartos-de-final.

Em 1966, a Inglaterra sagrou-se campeã do mundo com um golo decisivo no prolongamento em que a bola nunca chegou a passar a linha de baliza

 

 

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A Ghandi do Sahara

Aminetu Haidar está retida no aeroporto de Lanzarote em greve de fome.

Cortesia: Associação de Amizade Portugal – Sahara Ocidental

Existe um território africano que ainda permanece colonizado. Está a sul de Marrocos, a escassos quilómetros da costa algarvia. É um país emerso na areia do deserto, um dos mais despovoados do mundo e chama-se Sahara Ocidental.

Dominados por Espanha até 1975, os sahauris proclamaram nesse ano a independência mas os Acordos de Madrid entregaram a determinação do país a Marrocos e à Mauritânia. Em 1979, a Mauritânia abdicou da sua parte do território mas o exército marroquino anexou o país e fixou-se no Sahara Ocidental até aos nossos dias. A guerra entre a movimento da Frente Polisario, que defende a auto-determinação da RASD (República Árabe Sahauri Democrática), e o reino marroquino, dura há 33 anos. Um conflito surdo e mudo que, ocasionalmente, faz soar minas e metralhadoras para despertar a atenção do mundo. A Polisario pede o referendo, Marrocos defende o direito de controle da região. Muitos especialistas em direito internacional traçam um paralelismo entre a anexação de Timor-Leste, pela Indonésia, e do Sahara Ocidental, por Marrocos.

No Sahara Ocidental foi construído um dos muros mais vergonhosos dos nossos tempos, com mais de 2000 quilómetros de betão ao longo de um campo de areia minada, dividindo os dois terços de território regidos por Marrocos da parcela libertada pela Polisario. Mais de 150 mil sahauris foram obrigados a esconder-se na Argélia e vivem hoje no campo de refugiados de Tindouf, considerado por António Guterres, Alto-Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, como um exemplo de organização em acampamentos de expatriados.

Foi neste mundo hostil que Aminetu Haidar cresceu, em El Aaiún, capital do Sahara Ocidental. Haidar foi pela presa pela primeira vez em 1987, por se manifestar contra a ocupação marroquina durante uma visita da ONU ao país. Durante quatro anos, a sahauri foi torturada e humilhada nas celas sórdidas de El Aaiún, apelidada de “Prisão Negra” por todos aqueles que tiveram a má sorte de por lá passar. A activista passou quase quatro anos de olhos vendados, sozinha, foi brutalmente espancada e torturada para confessar a prática de acções de terrorismo que a condenassem a um julgamento legítimo. Em vão. Haidar é uma pacifista e não cedeu. Após a libertação, continuou a organizar manifestações pacíficas e greves de fome para alertar a opinião pública da repressão sentida pelos sahauris. Ao contrário de Xanana Gusmão, Haidar tem lutado sem armas. Isso já lhe valeu o cognome honorário de “Gandhi Sahauri” e vários reconhecimentos internacionais: Prémio Coragem Civil 2009 (EUA), Prémio de Direitos Humanos Robert F. Kennedy 2008 e Juan Maria Bandrés (Espanha).

Na passada sexta-feira, Haidar, casada e mãe de dois filhos, voltava para El Aaiún depois de uma conferência nas Canárias. À chegada ao aeroporto do deserto, recusou declarar-se marroquina. A polícia levou-a para uma pequena sala do aeroporto, desapropriou-a do passaporte e do telemóvel, disparou centenas de flashes em direcção aos seus olhos fragilizados por quatro anos de escuridão e expatriou-a para Lanzarote, Espanha. No domingo, Haidar entrou novamente em greve de fome. Quer voltar ao seu país mas está impedida de fazê-lo pelas autoridades espanholas e marroquinas. O caso já está a provocar uma onda de solidariedade por todo o mundo.

O problema dos sahauris, que se arrasta há mais de três décadas, não parece preocupar os diplomatas e políticos portugueses que tanto lutaram pela causa timorense. Pelo contrário, Portugal está inserido no programa de colaboração da União Europeia com Marrocos que permite aos arrastões europeus pescar nas ricas águas do Sahara Ocidental. Haidar continua a sacrificar-se para entregar aos sahauris o peixe das suas águas, para permitir aos refugiados de Tindouf o regresso à sua terra e para levar aos tribunais todos os torturadores dos activistas sahauris. O referendo já esteve iminente por duas vezes, mas Marrocos não aceitou os termos do sufrágio.

Road to World Cup vai passar pelo Sahara Ocidental e vai dar-lhe uma ideia da realidade deste conflito. Há cerca de dois anos, interessei-me por este tema e quis ir a Tindouf visitar o campo de refugiados. Falei com o jurista António Baptista da Silva, presidente da Associação Portugal – Sahara Ocidental, que me disse uma frase que até hoje subsiste na minha memória: “Nenhum povo que luta justamente pela auto-determinação aceita a derrota, mesmo que a vitória demore séculos a concretizar-se”.

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