
Toma atenção, Kahima, no que te vou dizer, porque basta trocar a ordem de um mando para tudo se gorar…Esta noite levas pós para espalhá-los, um poucochinho de cada vez, em todos os cruzamentos do caminho onde passarão os jogadores e a assistência. Vais benzer todas as encruzilhadas!…Em todo o trajecto, tanto na ida como na volta, não deixes que alguém te passe à esquerda. Evita!…Depois daquela nascente de Kibulukutu, em direcção à primeira choça que encontrares, isto é, antes da Baixa de Malombe, enterras esta dibunda. Pega, fecha a mão!…Muita atenção, ouviste?…Quando cantar o primeiro galo tens que estar no campo da bola. E no centro, no lugar da coroa onde se assenta a bola, enterras isso. Pega, fecha a mão!…Depois de enterrares, alisas o lugar, de uma maneira para ninguém desconfiar…Depois desta operação, dá oito voltas ao campo; na nona, passas com este embrulho. Pega, fecha a mão!…Noves vezes entre as pernas…Regressas…Por volta das onze da manhã, portanto, amanhã dia do jogo, trazes-me todos os jogadores que farão parte do desafio…
Uanhenga Xitu, Bola com Feitiço, ed. Cotovia pág. 59-60
Todos os espectadores vão a um estádio de futebol à procura de momentos mágicos, de defesas milagrosas e de remates do Além. Mas, em África, o conceito é aplicado de uma forma literal. A magia negra, ou juju, faz parte dos genes do desporto na África subsariana e, apesar de todos os esforços das entidades competentes para a erradicar dos estádios, continua a pairar misteriosamente sobre as bolas de futebol.
Algumas situações estranhas ocorrem, jornada após jornada, em vários jogos de ligas africanas. Há relatos de equipas que se recusaram a entrar em campo pelo túnel de acesso ao relvado porque souberam que o bruxo do clube contrário tinha espalhado sangue de porco no chão que iriam pisar. Para evitar maldições, os jogadores, já equipados, entram pela porta dos espectadores ou saltam os muros do recinto para entrar em campo, ludibriando a magia negra que os adversários espalharam no seu balneário.
Mas há mais registos de evocações de forças sobrenaturais para enfraquecer as pernas dos futebolistas. Algumas das mais usadas são: enterrar a cabeça de uma vaca, de uma galinha ou de um gato em frente à baliza, espalhar as cinzas de animais ou de plantas no terreno de jogo, contratar um bruxo para rogar pragas aos rivais e pendurar um par de luvas ou um amuleto nas redes da baliza para dar protecção ao guarda-redes. “Se for um guarda-redes, deve colocar um dente de elefante dentro da chuteira, para que fique grande e forte. Como é que um jogador pode transpor um homem que é como um elefante?”, disse o sul-africano Freddie Saddam, especialista em futebol africano, ao jornal The Observer .
Em Setembro de 2004, as equipas Simba e Yanga preparavam-se para disputar um jogo decisivo do campeonato da Tanzânia. Antes do desafio, os jogadores do Simba foram apanhados a lançar uma mistura líquida e ovos partidos em redor da área adversária. Em resposta, o Yanga mandou dois dos seus atletas urinar no relvado. O jogo acabou com um empate 2-2, mas ambas as equipas foram multadas em 500 dólares por condutas “inaceitáveis”.
Mais recentemente, no campeonato do Malawi, o jogo entre o Dwangwa United e o Moyale Barracks também ficou manchado pela feitiçaria. A equipa visitante de Moyale apercebeu-se que o médio Winter Mpota, do Dwangwa, estava à espera que toda a gente entrasse em campo para ele ser o último a fazê-lo. Pensando tratar-se de uma bruxaria, o Moyale ordenou ao seu jogador Charles Kamanga para ficar de fora e entrar somente quando Mpota o fizesse. Para surpresa do público, a partida desenrolou-se com dez jogadores para cada lado.
Um atleta de uma das melhores equipas sul-africanas disse à revista African Soccer que o presidente da equipa os obrigou a entrar no autocarro e conduzi-os até à mata. Escavaram um grande buraco na terra, encheram-no com uma poção mágica e obrigaram os jogadores a banharem-se nus na loção divina.
O pior aconteceu em 2008, na República Democrática do Congo, quando 13 pessoas morreram em consequência de desacatos provocados por suspeita de feitiçaria. Tudo terá começado quando o guarda-redes do Nyuki tirou algo por baixo da camisola e a atirou contra as redes da baliza contrária. Os jogadores da equipa do Socozaki responderam com violência e a tragédia abateu-se sobre o estádio.
Não se pense que a feitiçaria só existe em jogos de ligas africanas amadoras ou semi-profissionais. As bruxarias e os enguiços também disputam as maiores competições. Na Taça das Nações Africanas 2002, organizada no Mali, o treinador da selecção dos Camarões, Winfried Schaffer e o seu assistente, foram detidos pela polícia maliana por suspeita de juju. Dois anos antes, nos quartos-de-final da mesma competição, um oficial da Federação nigeriana foi visto a correr em redor do campo para colocar um amuleto nas redes da baliza do Senegal, aos 75 minutos de jogo, numa altura em que os senegaleses batiam os nigerianos por 1-0. Em 15 minutos, a Nigéria deu a volta ao jogo e venceu por 2-1.
Por esta mesma altura, jornalistas senegaleses juram ter visto um marabu (bruxo) a untar os postes da baliza do guarda-redes Tony Silva antes dos jogos. O guarda-redes senegalês esteve 448 minutos sem sofrer golos.
Antes do Mundial de 2006, a Federação Ganesa de Futebol, teve de interditar o acesso ao avião à rainha das feiticeiras da região de Nzemaland, que queria viajar com a equipa de Essien para a Alemanha, a fim de “livrá-los dos espíritos do mal”.
A CAF (Confederation of African Football) tem movido uma intensa guerra contra os bruxos e os marabus que, segundo eles, sujam a imagem de desenvolvimento do futebol africano. “Temos tanta vontade de acabar com a imagem dos bruxos nos jogos como com a dos canibais. A imagem é tudo e isso é de Terceiro Mundo”, disse um porta-voz da CAF. Muitos clubes gastam fortunas nos serviços de feitiçaria. “Até ficam sem dinheiro para viajar nos jogos fora de casa”, diz Oliver Becker, um alemão que fez um documentário sobre o tema, à National Geographic. Os rituais animistas e as crenças tradicionais estão muito enraizadas em certos sectores da população e reflectem-se no futebol. E, mesmo que consigam afastar os feiticeiros dos estádios, eles não receiam cair no desemprego. “Fazemos isto por controle remoto. Colocamos o nome das estrelas das equipas adversárias num tronco de árvore, depois envolvemo-los com uma venda preta para que fiquem tapados e, no dia do jogo, não verão nada”, disse Juma Mohammed Mwanachuwoni, um famoso bruxo queniano a um jornal local.