
Costa do Marfim: A selecção que acabou com a guerra civil
O país do Deus Drogba
Na Costa do Marfim, deram o nome de Drogba à cerveja nacional, a uma aldeia e à canção que liderou o top de vendas. O jogador do Chelsea é o maior símbolo de uma selecção que fez num jogo o que os políticos do país não conseguiram em cinco anos: acabar com a guerra civil.
Na final da Liga dos Campeões de 2007, que opôs as equipas inglesas do Manchester United e do Chelsea, sofreu-se mais numa aldeia marfinense do que em qualquer bar em Londres. O chefe da aldeia Drogba, situada escassos quilómetros a oeste de Abidjan, contraiu uma divida de quase 15 mil euros para comprar uma ecrã de dimensões cinematográficas e organizar uma grande festa para os moradores e povoações vizinhas. O ancião baptizou a aldeia depois de ter notado que a sua esposa fazia anos no mesmo dia que o futebolista e de ter chamado Drogba aos seus dois filhos. “Ele é mais do que um futebolista e mais do que um homem. Ele é um Deus enviado para dar alegria e esperança ao povo da Costa do Marfim”, disse o chefe da tribo ao jornal inglês The Sun.
Este é só um dos muitos exemplos da devoção dos marfinenses ao seu capitão de equipa. A cara de Drogba está espalhada pelo país em cartazes publicitários do banco e do chocolate nacional. Em Abidjan, a principal cerveja do país foi apelidada de Drogba, por ser alta – de 1 litro – e forte – 5,5% de teor alcoólico -, tal como o goleador da selecção. O musico Billy Billy subiu aos tops de vendas nacionais com uma musica de hip-hop chamada Didier Drogba. Diz a letra: “Je suis fan, fan de l’enfant, de le capitan de Les Eléphants…Didier Drogba”.
Les Eléphants (Os Elefantes) é o nome pelo qual é conhecida a selecção da Costa do Marfim. No sorteio da passada sexta-feira, o destino voltou a colocar os africanos no grupo mais difícil do Campeonato do Mundo; na sua primeira participação, em 2006, a Costa do Marfim cruzou-se com a Holanda, Argentina e Sérvia-Montenegro e ficou pelo caminho. Quatro anos depois, os adversários são a Coreia do Norte, o Brasil e Portugal, contra quem jogará na primeira jornada. Porém, a Costa do Marfim está mais forte que nunca. Ultrapassou a fase de qualificação sem sofrer qualquer derrota e com um registo de 29 golos marcados contra apenas seis sofridos, em 12 jogos. Todos os jogadores da equipa, treinada pelo bósnio Vahid Halilhodzic, jogam em clubes europeus. Sete dos 11 titulares alinham mesmo em clubes de topo – Arsenal, Chelsea, Manchester City, Barcelona e Sevilha. O grupo G é ainda o mais milionário do Mundial; a soma dos valores das ultimas transferências das três estrelas das principais equipas, Kaka, C.Ronaldo e Drogba, dá 195 milhões de euros.
Contudo, não é de esperar que os elefantes se atemorizem com o peso dos concorrentes. Entre 2001 e 2006, esta selecção teve de bater-se contra um adversário bem mais temível – a guerra civil. A situação na Costa do Marfim, maior produtor de cacau e café e oásis de estabilidade na África Ocidental desde a sua independência, complicou-se após duas tentativas de golpe de Estado em 1999 e em 2001. O pais ficou dividido em dois: o sul, mais próspero e cristão, controlado pelas tropas governamentais e o norte, islâmico e mais pobre, controlado pelas forças rebeldes de Guillaume Soro. A nação, composta por 60 etnias diferentes, foi inundada por banhos de sangue e entrou em colapso. A selecção, composta por atletas das mais diversas crenças e etnias, permaneceu unida. A guerra só parava para ver Drogba e Kalou a jogar.
Em 2005, após ter conseguido a qualificação para o Mundial’ 2006 num jogo milagroso contra o Sudão, Drogba pegou no microfone de uma equipa de televisão que entrou no balneário, ajoelhou-se e disse, em directo, ao pais: “Marfinenses, ao qualificarmo-nos para o Mundial mostrámos que toda a Costa do Marfim pode partilhar os mesmos golos. Prometemos que os festejos vão voltar a unir toda a gente. Rogamos-vos, de joelhos, para que deixem cair as armas e organizem eleições livres”.
A profecia de Drogba concretizou-se: pessoas do norte e do sul rumaram a Abidjan para receber os heróis, que se passearam em tronco nu pela cidade, em cima de tanques do exército do Governo. O presidente Laurent Gbagbo ofereceu uma casa de luxo em Abidjan a cada um dos jogadores da equipa. Na Costa do Marfim, o futebol pode causar ondas de euforia e de ódio – em 2000, a selecção teve de esconder-se numa base militar para se refugiar da ira dos adeptos, enfurecidos por uma prestação desastrosa da equipa na Taça das Nações Africanas.
Durante o Mundial de 2006, o país deu as mãos pelos Elefantes. Já em 2007, Drogba conseguiu fazer num jogo de futebol o que políticos e diplomatas não conseguiram ao longo de cinco anos. Estando em vigor um frágil cessar-fogo, o jogador do Chelsea exigiu que a partida de qualificação para a Taça das Nações Africanas contra Madagáscar se jogasse em Bouaké, epicentro da guerra civil e quartel-general das forças rebeldes. Cinco anos depois, governo e revoltosos cantaram o hino juntos, a Costa do Marfim ganhou por 5-0 e a guerra acabou. Drogba saiu a ombros. As manchetes anunciaram: “Cinco golos para acabar com cinco anos de guerra”. “Quando vi Drogba na TV, fiquei com pele de galinha. A minha mulher chorou, os jornalistas choraram. Nos tínhamos este tumor, estávamos doentes, mas não tínhamos perspectivas de melhorar. Não podia ter sido feito por outra pessoa. Só Drogba. Foi ele que nos curou da guerra”, disse Cristophe Diecket, um oficial da federação marfinense, à revista Vanity Fair.
Em Abidjan, um grupo de mulheres costuma concentrar-se em casa de Zokora, jogador do Sevilha. É o grupo das Mães Elefantes e é constituído pelas mães dos jogadores da selecção. Elas viram metade do actual plantel crescer nos subúrbios da cidade, jogando descalços ou com korodjo – umas típicas sandálias brancas de plástico, cujo par custa um euro. Viram-nos chegar à academia do ASEC Mimosas, uma espécie de Real Madrid da África Ocidental e a assinar pelos melhores clubes francófonos na Europa. Viram como se transformaram em estrelas internacionais e receberam casas de luxo. Quando Portugal jogar contra a Costado Marfim, as Mães Elefantes vão estar em casa de Zokora. Umas vão estar viradas para Meca, outras praticarão cultos animistas, outras terão um terço nas mãos. Algumas nasceram em aldeias do Norte, outras no Sul. E só podem estar todas juntas porque viram os filhos calar uma guerra.
Coreia do Norte: 44 anos depois volta a encontrar Portugal no Mundial

O guarda-redes da Muralha de Ferro
Não podem jogar fora do país, recebem salário do Estado, não usam Internet e transformam avançados em guarda-redes para bem da nação. A selecção norte-coreana foi construída segundo os alicerces da ditadura de Kim Il-sung e é a mais secreta do Mundo. O guarda-redes Ri Myong-guk é o herói do país.
A Coreia do Norte precisava de empatar o seu último jogo contra a Arábia Saudita para garantir a presença no Mundial. Em Riade, o guarda-redes Myong-guk fez uma sucessão de defesas impossíveis, mantendo a sua baliza intocada e preservando o empate sem golos. Graças a esse resultado, o país mais isolado do Mundo conseguiu qualificar-se para o campeonato da África do Sul e Myong-guk foi promovido a herói nacional.
O guarda-redes é o símbolo do espírito de sacrifício e da disciplina da equipa. Com 23 anos, vem de uma família de futebolistas e de voleibolistas. Começou a carreira com 13 anos, como guarda-redes da escola de Phyongchon e mostrou logo muito talento. Mas Myong não queria estar na baliza, sonhava com terrenos mais adiantados para poder marcar golos pelo seu país. Foi com esse objectivo que chegou ao Pyongyang City, o seu actual clube. Mas o treinador sabia que a principal lacuna da selecção estava na baliza e, vendo o potencial atlético de Myong-guk, pediu-lhe que se treinasse como guarda-redes. A opção revelou-se a mais acertada. Os norte-coreanos sofreram apenas 6 golos em 16 jogos na fase de qualificação para o Mundial e Myong chegou a estar 671 minutos sem sofrer qualquer golo, registo apenas ultrapassado pelo holandês Edwin van der Sar. Foi também incluído na lista dos 15 melhores futebolistas da Ásia. Além disso, é tido como um exemplo de dedicação ao regime e chamado de “Guardião da Muralha de Ferro”. “Quando estou a defender a baliza, sinto-me a guardar o portão da minha terra-mãe”, disse o guarda-redes, na chegada da equipa ao aeroporto de Pyongyang após garantir a presença no torneio da África do Sul.
A qualificação directa da Coreia do Norte foi uma das maiores surpresas da competição. A maioria dos futebolistas joga na liga norte-coreana, em que todas as equipas pertencem ao Estado ditatorial de Kim Jong-il, filho do fundador do regime e líder eterno, Kim Il-sung. É o governo que lhes paga o ordenado, que os pode transferir ou despedir. Não existem estrangeiros. A melhor equipa do campeonato e a que fornece mais jogadores à selecção é o 25 de Abril, o clube do Exército do Povo Coreano, assim denominado em homenagem ao Dia da Fundação Militar, em 1932, quando os norte-coreanos estabeleceram a sua guerrilha anti-japonesa. Apenas quatro atletas jogam no exterior: Hong Yong-jo, no Rostov da Rússia, Kim-Kuk-jin, dos suíços FC Will, Ahn Young-hak, dos sul-coreanos Suwon Samsung e Jong Tae-se, a estrela da equipa, dos japoneses Kawasaki Frontal.
Tae-se, também conhecido na Ásia como “Rooney coreano”, nasceu em Nagoya, no Japão, descendente de sul-coreanos. No Japão, andou sempre em escolas subsidiadas pela Coreia do Norte e acabou por assimilar os ideais revolucionários proliferados pela dinastia Kim. Teve bastantes problemas burocráticos para trocar a nacionalidade sul-coreana pela da parte norte da península, uma vez que os países não reconhecem legitimidade um ao outro. Mais tarde, teve de escolher entre as selecções japonesa e norte-coreana. Depois de assistir à eliminação da Coreia do Norte às mãos do Japão, em 2006, Tae-se fez a sua escolha – internacionalizou-se pela equipa comunista.
Esta não vai ser a estreia da Coreia do Norte num Campeonato do Mundo. Há 44 anos, quando Pak Do-ik marcou o golo da vitória da Coreia do Norte contra a Itália no Mundial de 1966, o Mundo ficou perplexo. Os desconhecidos norte-coreanos afastaram uma das melhores equipas da prova e tornaram-se na primeira selecção asiática a passar da fase de grupos de um Campeonato do Mundo. Ainda hoje, os italianos chamam a Do-ik “Il Dentista” (O Dentista), pela dor aguda que infligiu à nação.
Os “Mosquitos Vermelhos”, como foram apelidados, só sucumbiram aos pés de Eusébio nos quartos-de-final, numa derrota contra Portugal por 5-3. Assim que essa famosa equipa que encantou o Mundial de Inglaterra há 44 anos regressou à Coreia do Norte, desapareceu para sempre. Correram rumores horríveis sobre o destino dos heróis norte-coreanos porque, ao que parece, as autoridades norte-coreanas não ficaram tão satisfeitas com a participação quanto os adeptos. “As pessoas diziam que durante a estadia em Inglaterra, os jogadores tinham bebido e seduzido mulheres”, diz Shim Joo-il, um ex-militar norte-coreano exilado na Coreia do Sul, à BBC. “Há quem diga que alguns deles foram enviados para as minas de carvão como castigo e que foi por essa razão que a nossa equipa nunca mais chegou tão longe”. Se é um mistério o que aconteceu à selecção norte-coreana de 1966, pouco mais se sabe sobre a equipa que se vai cruzar com Portugal no grupo G do Mundial 2010. A razão é simples: a Coreia do Norte é o país mais fechado do Mundo. Praticamente não recebe turistas, a população não tem telemóveis nem internet nem acesso a outros canais de televisão senão os impostos por Kim Jong-il. O déspota já anunciou que a televisão norte-coreana apenas transmitirá as eventuais vitórias da selecção nacional. Mesmo no resumo de jogos vitoriosos, serão vetadas as imagens de propagandas consideradas perigosas e das claques adversárias. Se a Coreia do Norte não se sagrar campeã, 99% da população norte-coreana não saberá quem venceu o Mundial. As hipóteses disso acontecer são tremendas. As bolsas de apostas inglesas estabelecem em 1 para 350, a probabilidade de vitória norte-coreana.
Pela primeira vez desde 1966, a selecção aterrou na Europa para fazer um estágio em Nantes, França. A selecção empatou 0-0 os dois jogos que fez em solo europeu, contra a selecção do Congo-Brazaville e contra o Nantes, clube da segunda divisão francesa. A necessidade de manter os norte-coreanos isolados num reino eremita faz com que existam no país algumas leis impensáveis. É, por exemplo, proibido dobrar, amachucar ou mandar para o lixo um jornal cuja manchete tenha a foto do líder Kim Jong-il. Só se pode entrar no país através de agências de viagem nacionais e com guias autorizados e não se podem levar livros, discos ou filmes que possam fazer circular qualquer prática ocidental. Para um norte-coreano, a saída está vedada. E qualquer desrespeito a estas regras é punida com mãos sanguinárias – calcula-se que no país existam seis campos de concentração com mais de 150 mil pessoas que contrariaram as ordens do regime. Relatos de refugiados indicam a existência de câmaras de gás e de ensaios químicos com prisioneiros. Três milhões de pessoas passam fome; por causa da subnutrição, a média de altura dos norte-coreanos é sete centímetros inferior à dos seus vizinhos do sul.
A rivalidade entre as duas Coreias é tão grande que os dois jogos marcados para Pyongyang durante a fase de qualificação tiveram de ser disputados em campo neutro, uma vez que a Coreia do Norte se recusou a passar o hino sul-coreano e a hastear a bandeira rival em solo nacional. No jogo de Seoul, os norte-coreanos desculparam a derrota por 1-0 com um enredo cinematográfico; o seleccionador Kim Jong-hun disse, em conferência de imprensa, que os sul-coreanos tinham envenenado a comida da sua equipa.
Tiago Carrasco, revista Sábado 10/11/09